{"id":11246,"date":"2024-04-13T13:55:33","date_gmt":"2024-04-13T11:55:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.dorif.it\/reperes\/?p=11246"},"modified":"2024-06-30T16:03:24","modified_gmt":"2024-06-30T14:03:24","slug":"d-dos-santos-nunes-e-gluck-m-e-giering-comentarios-troll-no-twitter-a-ciberviolencia-discursiva-contra-o-divulgador-cientifico-brasileiro-atila-iamarino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.dorif.it\/reperes\/d-dos-santos-nunes-e-gluck-m-e-giering-comentarios-troll-no-twitter-a-ciberviolencia-discursiva-contra-o-divulgador-cientifico-brasileiro-atila-iamarino\/","title":{"rendered":"Dieila Dos SANTOS NUNES, Eduardo GL\u00dcCK, Maria Eduarda GIERING, Coment\u00e1rios-troll no Twitter: a ciberviol\u00eancia discursiva contra o divulgador cient\u00edfico brasileiro Atila Iamarino"},"content":{"rendered":"<h3 id=\"dieila-dos-santos-nunes-eduard\" style=\"text-align: center; padding-left: 40px;\">Dieila Dos SANTOS NUNES, Eduardo GL\u00dcCK, Maria Eduarda GIERING<\/h3>\n<h2 id=\"--coment\u00e1rios-troll-no-twitte\"><\/h2>\n<h2 id=\"coment\u00e1rios-troll-no-twitter:\" style=\"text-align: center;\"><strong>Coment\u00e1rios-troll no Twitter: a ciberviol\u00eancia discursiva contra o divulgador cient\u00edfico brasileiro Atila Iamarino<\/strong><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Dieila dos Santos Nunes<\/strong><br \/>\nUniversidade do Vale do Rio dos Sinos &#8211; Unisinos\/Brasil<br \/>\nFaculdades Integradas de Taquara &#8211; Faccat\/Brasil<br \/>\ndieiladossantos@gmail.com<\/p>\n<p><strong>Eduardo Gl\u00fcck<br \/>\n<\/strong>Universidade do Vale do Rio dos Sinos &#8211; Unisinos\/Brasil<br \/>\nUniversidade NOVA de Lisboa &#8211; NOVA FCSH\/Portugal<br \/>\neduardogluck@gmail.com<\/p>\n<p><strong>Maria Eduarda Giering<br \/>\n<\/strong>Universidade do Vale do Rio dos Sinos &#8211; Unisinos\/Brasil<br \/>\neduardajg@gmail.com<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Abstract<\/em><\/strong><\/p>\n<p>This research aims to identify technodiscursive brands that materialize troll-comments that carry discursive cyberviolence, directed at the Brazilian scientific disseminator Atila Iamarino on Twitter. We adopt a post-dualist and ecological epistemological stance, based on the Digital Discourse Analysis proposed by Marie-Anne Paveau (2013, 2017, 2021). Our object of study is an example of troll comments intended for @oatila, selected for qualitative analysis. The results show that discursive cyberviolence manifests itself by means of the phenomenon of flaming, based on lexical choices with a negative axiological value and phrastic constructions with a derogatory content, and it arises exclusively from the intrinsic relationship between the Twitter user, the platform itself and the device used.<\/p>\n<p><strong><em>Resumo<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Esta pesquisa objetiva identificar marcas tecnodiscursivas que materializam coment\u00e1rios-troll portadores de ciberviol\u00eancia discursiva, direcionados ao divulgador cient\u00edfico brasileiro Atila Iamarino no Twitter. Adotamos uma postura epistemol\u00f3gica p\u00f3s-dualista e ecol\u00f3gica, fundamentada na An\u00e1lise do Discurso Digital proposta por Marie-Anne Paveau (2013, 2017, 2021). Nosso objeto de estudo \u00e9 um exempl\u00e1rio de coment\u00e1rios-troll destinados a @oatila, selecionado para uma an\u00e1lise qualitativa. Os resultados evidenciam que a ciberviol\u00eancia discursiva se manifesta pelo fen\u00f4meno do <em>flaming<\/em>, a partir de escolhas lexicais com valor axiol\u00f3gico negativo e constru\u00e7\u00f5es fr\u00e1sticas com teor depreciativo, e surge exclusivamente da rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca entre usu\u00e1rio do Twitter, a pr\u00f3pria plataforma e o dispositivo utilizado.<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 id=\"introdu\u00e7\u00e3o\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>Frente a um per\u00edodo hist\u00f3rico de crise de sa\u00fade p\u00fablica no Brasil, o primeiro ano da pandemia de Covid-19 foi caracterizado pela defesa e disputa entre posi\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e anticient\u00edficas. Presenciamos a propaga\u00e7\u00e3o descontrolada de not\u00edcias falsas e teorias negadoras do conhecimento cient\u00edfico e, ao mesmo tempo, acompanhamos o \u00e1rduo trabalho dos cientistas na busca por vacinas e tratamentos para a Covid-19, bem como dos divulgadores cient\u00edficos, que se dedicavam a comunicar ci\u00eancia ao p\u00fablico n\u00e3o especializado.<\/p>\n<p>As redes sociais foram atuantes nesse contexto, permitindo a divulga\u00e7\u00e3o dos resultados das pesquisas sobre o Sars-CoV-2. No entanto, tamb\u00e9m facilitaram a dissemina\u00e7\u00e3o de desinforma\u00e7\u00e3o e discursos negacionistas, abrindo espa\u00e7o n\u00e3o s\u00f3 para contraposi\u00e7\u00f5es ao conhecimento cient\u00edfico, mas para ataques violentos e insultuosos contra cientistas e porta-vozes da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>O bi\u00f3logo e microbiologista brasileiro Atila Iamarino<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> foi um dos principais divulgadores cient\u00edficos que ganhou destaque durante esse per\u00edodo, conquistando espa\u00e7o nos meios de comunica\u00e7\u00e3o por sua incans\u00e1vel atua\u00e7\u00e3o na divulga\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia em diferentes ecossistemas digitais, sobretudo no Twitter. Entretanto, ao Atila Iamarino romper a bolha da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, alcan\u00e7ando um p\u00fablico maior devido \u00e0 sua participa\u00e7\u00e3o em diversos programas de televis\u00e3o, ocorreu uma s\u00e9rie de ataques verbais violentos contra ele.<\/p>\n<p>Em pesquisa-piloto, assinada pela primeira autora deste trabalho, que buscou identificar quantitativamente ataques contra @oatila no primeiro semestre de 2020, encontramos 2.026 coment\u00e1rios-troll direcionados a esse divulgador cient\u00edfico, sendo 900 deles concentrados no m\u00eas de abril. Esses dados num\u00e9ricos permitiram-nos classificar, segundo a An\u00e1lise do Discurso Digital (PAVEAU 2021), os tipos de coment\u00e1rios digitais presentes nos tu\u00edtes de @oatila, mas principalmente ratificar a ciberviol\u00eancia discursiva realizada a algu\u00e9m que assumia a voz da ci\u00eancia naquele momento de incertezas na sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Partindo desses 900 coment\u00e1rios-troll objetos de nossa pesquisa-piloto, foi objetivo da pesquisa identificar marcas tecnodiscursivas<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> que materializam coment\u00e1rios-troll portadores de ciberviol\u00eancia discursiva presentes em uma das quatro publica\u00e7\u00f5es mais curtidas de @oatila em abril de 2020. Nossa an\u00e1lise foi, portanto, qualitativa, de modo a atingir o objetivo delineado, compreendendo de que maneira ocorre a pr\u00e1tica da ciberviol\u00eancia discursiva na rede social digital Twitter.<\/p>\n<p>Para fundamentar teoricamente este estudo, apoiamo-nos principalmente nos pressupostos da An\u00e1lise do Discurso Digital, proposta pela linguista francesa Marie-Anne Paveau (2021).<\/p>\n<h3 id=\"-princ\u00edpios-da-an\u00e1lise-do-di\">1. Princ\u00edpios da An\u00e1lise do Discurso Digital e suas caracter\u00edsticas<\/h3>\n<p>Inserimo-nos no escopo da An\u00e1lise do Discurso Digital (doravante ADD), tendo em vista que nosso ecossistema de an\u00e1lise \u00e9 o Twitter<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, bem como as categorias anal\u00edticas convocadas para dar conta deste estudo s\u00e3o tecnodiscursivas. Desse modo, recorremos \u00e0 precursora da ADD, Marie-Anne Paveau, a fim de contemplar a dimens\u00e3o tecnolinguageira inerente \u00e0 nossa investiga\u00e7\u00e3o. Consoante Paveau (2021), h\u00e1 uma dimens\u00e3o indissoci\u00e1vel entre a mat\u00e9ria linguageira e a mat\u00e9ria tecnol\u00f3gica. Trata-se de um verdadeiro imbricamento do discurso com a tecnologia digital (PAVEAU 2013, 2021).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 relevante ressaltar que h\u00e1 importantes pesquisas sendo desenvolvidas sob a perspectiva da ADD. Com abordagem textual-discursiva, evidenciamos os estudos de Giering, Pinto (2021), Nunes, Giering (2022), Giering et al. (2023), Gl\u00fcck et al. (2022), Campani, Giering (2022), Souza (2021). Com \u00eanfase nos fen\u00f4menos discursivos, destacamos os trabalhos de Dias (2020), Paveau \u00a0(2021), Baronas (2021), Costa, Gl\u00fcck (2021), Paveau, Costa (2021). No entanto, s\u00e3o escassos os trabalhos que dedicam seu olhar aos fen\u00f4menos textuais sob a \u00f3tica da An\u00e1lise do Discurso Digital. Essa lacuna sugere uma oportunidade valiosa para aprofundar nossa compreens\u00e3o do fen\u00f4meno discursivo digital, explorando a rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca entre a materialidade lingu\u00edstica e a tecnologia digital.<\/p>\n<p>A ADD, para Paveau (2021), pode ser concebida enquanto uma Lingu\u00edstica Sim\u00e9trica, a partir do conceito de simetria, cunhado pelo antrop\u00f3logo, soci\u00f3logo e fil\u00f3sofo da ci\u00eancia Bruno Latour (2012). De acordo com Latour (2012: 158), os objetos t\u00eam ag\u00eancia, que significa \u201cestar associado de tal modo que fazem outros atores fazerem coisas\u201d. Dessa maneira, o pesquisador (2012) advoga o mesmo <em>status <\/em>e a mesma aten\u00e7\u00e3o aos atores humanos e n\u00e3o humanos.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, a Lingu\u00edstica Sim\u00e9trica op\u00f5e-se \u00e0 Lingu\u00edstica Logoc\u00eantrica \u2013 esta \u00faltima concebida pelos diversos estudos discursivos pr\u00e9-digitais \u2013 uma vez que h\u00e1 o rompimento da no\u00e7\u00e3o de lingu\u00edstico e de extralingu\u00edstico. Em outras palavras, os observ\u00e1veis s\u00e3o de natureza puramente linguageira na perspectiva logoc\u00eantrica; por isso, h\u00e1 aspectos que competem \u00e0 linguagem e outros que s\u00e3o exteriores a ela. Por sua vez, na perspectiva sim\u00e9trica, os observ\u00e1veis se comp\u00f5em de natureza tecnolinguageira, em uma mat\u00e9ria mista. Consoante Paveau (2021), portanto, as produ\u00e7\u00f5es nativas digitais s\u00e3o coconstitutivas de linguagem e tecnologia.<\/p>\n<p>Nessa esteira, defendemos que o ecossistema no qual o usu\u00e1rio est\u00e1 inserido determinar\u00e1 os caminhos e as possibilidades de intera\u00e7\u00e3o para ele. Assim, a tecnologia \u00e9 vista como um elemento em simetria com os demais, e n\u00e3o um aspecto extralingu\u00edstico, como \u00e9 vista em pesquisas pr\u00e9-digitais.<\/p>\n<p>Para alicer\u00e7ar sua teoria, Paveau (2017, 2021) desenvolve seis caracter\u00edsticas que definem o tecnodiscurso, a saber:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">I) Composi\u00e7\u00e3o: natureza indissoci\u00e1vel entre mat\u00e9ria linguageira e mat\u00e9ria tecnolo\u0301gica das produ\u00e7\u00f5es elaboradas e compartilhadas em contexto digital on-line.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">II) Deslineariza\u00e7\u00e3o: possibilidade tecnolinguageira de conectar dois textos digitais por meio de um elemento clic\u00e1vel, como o hiperlink.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">III)\u00a0 Amplia\u00e7\u00e3o: enuncia\u00e7\u00e3o ampliada devido \u00e0 conversacionalidade da Web, ou seja, as postagens on-line s\u00e3o aumentadas por coment\u00e1rios, ou at\u00e9 mesmo por ferramentas de escritas que permitem uma enuncia\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">IV) Relacionalidade: rela\u00e7\u00e3o com outros discursos devido \u00e0 reticularidade da Web, al\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o entre os pr\u00f3prios aparelhos digitais, em virtude de sua natureza comp\u00f3sita, que produz enunciados em coprodu\u00e7\u00e3o com a m\u00e1quina.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">V) Investigabilidade: possibilidade de rastreio dos discursos por meio das ferramentas de busca, que os tornam encontr\u00e1veis ou colet\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">VI) Imprevisibilidade: a\u00e7\u00e3o dos programas e algoritmos que, por interm\u00e9dio de suas f\u00f3rmulas matem\u00e1ticas gerenciados com a m\u00e1quina, manipulam forma e conte\u00fado dispostos em contexto digital.<\/p>\n<p>Apresentadas, de forma breve, a ADD e suas caracter\u00edsticas, passamos \u00e0 metodologia adotada para a execu\u00e7\u00e3o de nossa pesquisa.<\/p>\n<h3 id=\"-notas-sobre-a-ciberviol\u00eancia\">2. Notas sobre a ciberviol\u00eancia discursiva<\/h3>\n<p>A origem da ciberviol\u00eancia est\u00e1 vinculada \u00e0 viol\u00eancia verbal que ocorre online. O termo \u201cciber\u201d \u00e9 um prefixo que se relaciona diretamente com o mundo das redes digitais. Para L\u00e9vy (2018: 94), ciberespa\u00e7o \u00e9 \u201co espa\u00e7o de comunica\u00e7\u00e3o aberto pela interconex\u00e3o mundial dos computadores e das mem\u00f3rias dos computadores\u201d.<\/p>\n<p>Nos ambientes conectados podem ocorrer diversos tipos de viol\u00eancia, tais como <em>cyberbullying<\/em>, coer\u00e7\u00e3o, amea\u00e7as, insultos, incita\u00e7\u00e3o ao suic\u00eddio e \u00e0 viol\u00eancia etc., sendo esses hip\u00f4nimos da ciberviol\u00eancia. Eles representam o que Paveau (2021: 61) chama de \u201cacontecimentos discursivos morais desencadeados por enunciados violentos\u201d. Esses acontecimentos s\u00e3o conhecidos como ciberviol\u00eancia discursiva, que abrange diversas pr\u00e1ticas violentas, como ciberagress\u00e3o, ciberdiscuss\u00e3o e ciberataque.<\/p>\n<p>Paveau (2021) prop\u00f5e o discurso violento por meio de uma tipologia lingu\u00edstica da ciberviol\u00eancia discursiva, que \u00e9 organizada em sete principais categorias, divididas em contexto interacional e contexto descritivo, narrativo e argumentativo. Como nosso prop\u00f3sito foi analisar intera\u00e7\u00f5es no Twitter, plataforma que privilegia a conversacionalidade entre os usu\u00e1rios, principalmente pela possibilidade de realizar coment\u00e1rios, delimitamos nossa reflex\u00e3o te\u00f3rica na categoria que, conforme Paveau (2021), situa-se em contexto interacional e tem endere\u00e7amento direto em segunda pessoa: o <em>flaming<\/em>.<\/p>\n<p>O <em>flaming<\/em> caracteriza-se, como j\u00e1 dito, por ter um direcionamento direto em segunda pessoa. Nesse caso, as quest\u00f5es tecnolingu\u00edsticas est\u00e3o relacionadas \u00e0 ordem pragm\u00e1tica, considerando os efeitos dos discursos violentos no ambiente tecnodiscursivo. Al\u00e9m disso, h\u00e1 implica\u00e7\u00f5es sociodiscursivas, pois envolve as normas de aceitabilidade dos discursos no meio digital e o papel desempenhado pelos agressores na constru\u00e7\u00e3o desse discurso. De acordo com Amossy (2011), a linguagem agressiva e polarizada n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno exclusivo das m\u00eddias digitais, embora esteja relacionada a elas. A autora argumenta que as \u201cchamas\u201d no ciberespa\u00e7o devem ser compreendidas a partir do discurso pol\u00eamico. Assim, essa forma de comunica\u00e7\u00e3o intensa e controversa n\u00e3o se limita apenas ao ambiente digital, mas est\u00e1 presente tamb\u00e9m em outros espa\u00e7os de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Acreditamos que o <em>flaming <\/em>\u00e9 intr\u00ednseco ao contexto digital. Ele est\u00e1 especialmente relacionado \u00e0 exist\u00eancia de opini\u00f5es, culturas, cren\u00e7as e filia\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas divergentes entre os indiv\u00edduos envolvidos e emerge como resultado das intera\u00e7\u00f5es nos ecossistemas digitais, onde as diferen\u00e7as de vis\u00f5es e perspectivas podem gerar conflitos acalorados entre os participantes.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno do pseudonimato, considerado \u201cuma pr\u00e1tica muito comum na cultura digital\u201d (NUNES, GIERING 2022: 8560) que permite a escolha de um pseud\u00f4nimo nas redes sociais, possibilita ataques online sem revelar a verdadeira identidade do agressor, alimentando outras formas de viol\u00eancia no ambiente digital. Logo, \u00e9 uma atividade tecnodiscursiva que tem potencial de impulsionar o surgimento do <em>flaming<\/em>.<\/p>\n<p>O discurso digital apresenta caracter\u00edsticas intr\u00ednsecas \u00e0 internet que s\u00e3o fundamentais para uma an\u00e1lise ecol\u00f3gica p\u00f3s-dualista, visto que a materialidade dos fen\u00f4menos est\u00e1 condicionada pelas possibilidades e restri\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o dos ambientes conectados. Por essa raz\u00e3o, a ciberviol\u00eancia discursiva \u00e9 amplamente influenciada pelos padr\u00f5es de comunica\u00e7\u00e3o na web e, portanto, possui natureza tecnodiscursiva.<\/p>\n<p>Segundo Paveau (2021), existem seis par\u00e2metros que constituem o discurso violento na internet:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">I) O anonimato-pseudonimato, que desempenha o papel crucial como facilitador e agravante da ciberviol\u00eancia discursiva, uma vez que a v\u00edtima n\u00e3o consegue identificar a fonte da enunciativa.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">II) O efeito de aus\u00eancia e a cultura do quarto (<em>bedroom culture<\/em>): na comunica\u00e7\u00e3o online, a aus\u00eancia de implica\u00e7\u00f5es da identidade f\u00edsica das pessoas gera um efeito de distanciamento que \u00e9 intensificado pelo uso do pseudonimato, este determinante na escolha do tipo de ataque verbal e das respostas nas intera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">III) O efeito <em>cockpit<\/em>: devido \u00e0 aus\u00eancia f\u00edsica da v\u00edtima e \u00e0 impossibilidade de conhec\u00ea-la concretamente, os ambientes conectados criam um distanciamento que parece remover as barreiras da censura verbal, encorajando o agressor a realizar ataques verbais de forma mais impiedosa.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">IV) O deslocamento da rela\u00e7\u00e3o de poder: no ambiente digital, o poder discursivo \u00e9 detido por aqueles que dominam as ferramentas tecnol\u00f3gicas. Essa profici\u00eancia em tecnologia de natureza inform\u00e1tica, somada aos tr\u00eas par\u00e2metros mencionados anteriormente, estabelece a din\u00e2mica de poder no meio digital por meio dos efeitos tecnol\u00f3gicos e pragm\u00e1ticos dos discursos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">V) A inseparabilidade: os aparelhos ou dispositivos s\u00e3o vistos como componentes essenciais do ambiente, n\u00e3o se restringindo a meras ferramentas utilizadas para produzir discursos. Essa interliga\u00e7\u00e3o entre o ser humano e a m\u00e1quina sugere que, no plano discursivo, os discursos de ciberviol\u00eancia n\u00e3o podem ser totalmente evitados, conferindo-lhes uma caracter\u00edstica in\u00e9dita que deve ser incorporada \u00e0 sua descri\u00e7\u00e3o tecnodiscursiva (PAVEAU 2021).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">VI) A viralidade: a capacidade de se tornar viral \u00e9 uma caracter\u00edstica dos discursos online e fortalece os efeitos pragm\u00e1ticos da ciberviol\u00eancia, com base na rela\u00e7\u00e3o de dois sub-par\u00e2metros: \u201ca quantidade de emissores e receptores e a velocidade da dissemina\u00e7\u00e3o\u201d (PAVEAU 2021: 72). A intensifica\u00e7\u00e3o da ciberviol\u00eancia ocorre, ent\u00e3o, quando muitas pessoas est\u00e3o conectadas e interagindo em uma rede social ao mesmo tempo, o que pode levar a uma r\u00e1pida dissemina\u00e7\u00e3o de discursos agressivos e violentos.<\/p>\n<p>Tais caracter\u00edsticas dos ambientes conectados permitem-nos dizer que as redes sociais se constituem \u201ccomo palco de intera\u00e7\u00f5es que, por vezes, se fazem mais conflituosas do que harm\u00f4nicas\u201d (CABRAL, LIMA 2017: 87). Desse modo, consideramos importante refletir sobre como se materializam as intera\u00e7\u00f5es online pelos coment\u00e1rios.<\/p>\n<h3 id=\"-o-coment\u00e1rio-online:-o-caso-\">3. O coment\u00e1rio online: o caso do coment\u00e1rio-troll<\/h3>\n<p>O coment\u00e1rio online \u00e9 um dos g\u00eaneros tecnodiscursivos mais comuns na internet, aparecendo em diversos tipos de sites, blogs e, principalmente, nas redes sociais digitais. Ele representa a ideia de interatividade na web, pois permite que o leitor assuma uma posi\u00e7\u00e3o ativa diante do texto gra\u00e7as aos avan\u00e7os das tecnologias interativas no meio digital. Consiste em \u201c[&#8230;] lugar de di\u00e1logo, de sugest\u00e3o, de discuss\u00e3o, de exegese, de interpreta\u00e7\u00e3o, de manifesta\u00e7\u00e3o de pontos de vista e de argumentos, instaurando quer rela\u00e7\u00f5es convergentes e divergentes com o texto-fonte ou com coment\u00e1rios subsequentes\u201d (SEARA 2021: 388).<\/p>\n<p>O coment\u00e1rio pode ser considerado um tecnodiscurso segundo, engendrado em um espa\u00e7o escritural espec\u00edfico e enunciativamente restrito, presente no interior de um ambiente conectado. S\u00e3o caracter\u00edsticas do coment\u00e1rio online: enuncia\u00e7\u00e3o pseudon\u00edmica, relacionalidade, conversacionalidade e recursividade, amplia\u00e7\u00e3o enunciativa e discursiva, publicidade e visibilidade (PAVEAU 2021).<\/p>\n<p>A enuncia\u00e7\u00e3o pseudon\u00edmica \u00e9 considerada uma caracter\u00edstica marcante do coment\u00e1rio online, pois este \u00e9 assinado com, no m\u00ednimo, um endere\u00e7o de IP ou, no m\u00e1ximo, a identidade oficial de registro civil. No entanto, entre essas duas op\u00e7\u00f5es, encontra-se o uso do pseud\u00f4nimo escolhido pelo internauta como um fen\u00f4meno inerente \u00e0s redes sociais.<\/p>\n<p>Outra caracter\u00edstica do coment\u00e1rio online \u00e9 a relacionalidade, porque \u00e9 um dos lugares mais comuns onde os enunciados da web se relacionam, e alguns metadados \u2013 dados sobre outros dados \u2013 revelam e identificam essas rela\u00e7\u00f5es. O coment\u00e1rio \u00e9 produzido e publicado em um espa\u00e7o reservado, que o define como um coment\u00e1rio atrav\u00e9s de seus metadados; assim, dentro desse microssistema, o bot\u00e3o \u201cresponder\u201d controla de forma pr\u00e1tica o di\u00e1logo entre os comentadores.<\/p>\n<p>A conversacionalidade e a recursividade s\u00e3o caracter\u00edsticas presentes nos coment\u00e1rios, uma vez que as conversas ocorrem por meio das janelas de coment\u00e1rios e seus metadados. De acordo com Paveau (2021), as janelas tecnodiscursivas marcam o in\u00edcio de uma troca, e as sequ\u00eancias de fechamento n\u00e3o existem no ambiente online, pois os coment\u00e1rios permanecem abertos, evidenciando a possibilidade de continua\u00e7\u00e3o da conversa.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o coment\u00e1rio possui publicidade e visibilidade inerentes. Paveau (2021) chama essa dimens\u00e3o de sociot\u00e9cnica, pois ela influencia o funcionamento tecnodiscursivo do coment\u00e1rio, juntamente com o pseudonimato, a relacionalidade, a conversacionalidade e a amplia\u00e7\u00e3o. Em sites e blogs, \u00e9 comum que os coment\u00e1rios sejam p\u00fablicos e vis\u00edveis, enquanto nas redes sociais, isso depende da configura\u00e7\u00e3o feita pelo usu\u00e1rio da conta. No caso do Twitter, nem todos os coment\u00e1rios p\u00fablicos s\u00e3o vis\u00edveis, pois o usu\u00e1rio pode optar por tornar sua conta privada ou bloquear e ocultar determinados conte\u00fados de seus seguidores ou parte deles.<\/p>\n<p>A ADD prop\u00f5e uma tipologia dos coment\u00e1rios online, compreendida em quatro grandes categorias (coment\u00e1rio relacional, coment\u00e1rio conversacional, coment\u00e1rio deslocado e coment\u00e1rio-compartilhamento). Dentro das intera\u00e7\u00f5es conversacionais e podendo ser definido enquanto um tipo de coment\u00e1rio conversacional, tem-se o coment\u00e1rio-troll, cujo \u00fanico prop\u00f3sito \u00e9 criar confus\u00e3o ou interromper a conversa com interven\u00e7\u00f5es inadequadas.<\/p>\n<p>O termo \u201ctroll\u201d deriva da express\u00e3o \u201ctrolling for suckers\u201d ou \u201clan\u00e7ando a isca para os trouxas\u201d e surgiu na Usenet, uma rede descentralizada composta por servidores de diferentes hosts que distribuem e armazenam dados. Na internet, a palavra \u201ctroll\u201d \u00e9 usada para se referir aos internautas que t\u00eam o objetivo de perturbar a harmonia das intera\u00e7\u00f5es, semeando o caos por meio de coment\u00e1rios violentos e, em muitos casos, que n\u00e3o t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com o t\u00f3pico em discuss\u00e3o. De acordo com Amaral, Quadros (2006), os trolls postam mensagens agressivas que variam de ironia e humor at\u00e9 amea\u00e7as \u00e0 integridade dos participantes, insultos, especula\u00e7\u00f5es sobre a vida pessoal e uso de palavr\u00f5es.<\/p>\n<p>Observamos que o comportamento troll em coment\u00e1rios pode ser compreendido \u00e0 luz do conceito de \u201chaters\u201d. O termo \u201chaters\u201d tem origem na l\u00edngua inglesa e surgiu, de acordo com Rebs, Ernst (2017), nos guetos norte-americanos por meio da express\u00e3o \u201chaters gonna hate\u201d, que pode ser traduzida para o portugu\u00eas como \u201codiadores v\u00e3o odiar\u201d. Nas plataformas de redes sociais, aqueles internautas que buscam promover viol\u00eancia e agem de maneira agressiva contra outros usu\u00e1rios, frequentemente figuras p\u00fablicas, institui\u00e7\u00f5es ou empresas, s\u00e3o conhecidos como \u201chaters\u201d.<\/p>\n<p>Diante do apresentado, sustentamos a perspectiva de que, em determinados cen\u00e1rios, os trolls podem ser considerados como potenciais \u201chaters\u201d, uma vez que ambos almejam instigar tumulto em uma conversa por meio de coment\u00e1rios intempestivos e mal-intencionados. Paveau (2021) tamb\u00e9m enfatiza que a palavra \u201ctroll\u201d refere-se tanto \u00e0 figura do locutor online, cujo prop\u00f3sito \u00e9 minar a intera\u00e7\u00e3o, quanto ao coment\u00e1rio por ele gerado. Assim, estamos lidando com o fen\u00f4meno do \u201ccoment\u00e1rio-troll\u201d, do qual decorre o <em>flaming<\/em> \u2013 uma das categorias de ciberviol\u00eancia mais encontradas nesse tipo de coment\u00e1rio, em virtude de seus efeitos violentos.<\/p>\n<p>Nesse sentido, devido \u00e0 complexidade do coment\u00e1rio-troll enquanto fen\u00f4meno caracter\u00edstico dos ambientes digitais, sobretudo das redes sociais, que permitem intera\u00e7\u00e3o direta entre os internautas, julgamos adequado compreender o funcionamento dos tecnodiscursos e suas principais caracter\u00edsticas.<\/p>\n<h3 id=\"-metodologia\">4. Metodologia<\/h3>\n<p>Nesta an\u00e1lise de teor qualitativo, ser\u00e1 utilizada a An\u00e1lise do Discurso Digital (PAVEAU 2021) com uma abordagem ecol\u00f3gica e p\u00f3s-dualista, considerando tanto elementos lingu\u00edsticos quanto elementos tecnol\u00f3gicos inform\u00e1ticos numa rela\u00e7\u00e3o comp\u00f3sita. Nesse sentido, abandonamos o dualismo entre objetividade e subjetividade, uma vez que os dados foram gerados pela primeira autora, que atua como analista e como usu\u00e1ria do Twitter. Cada usu\u00e1rio tem uma perspectiva espec\u00edfica e visualiza conte\u00fados altamente contextualizados pela din\u00e2mica da web, incluindo formatos de navega\u00e7\u00e3o e c\u00e1lculos algor\u00edtmicos. Portanto, nossos dados s\u00e3o compostos de dados espec\u00edficos e subjetivos.<\/p>\n<p>Com o prop\u00f3sito de atender ao objetivo desta pesquisa, e tendo em vista sua extens\u00e3o, selecionamos os dois primeiros coment\u00e1rios-troll do tu\u00edte de @oatila entre os quatro que foram publicados por ele no m\u00eas de abril de 2020 e receberam mais rea\u00e7\u00f5es em curtidas. Eles representam, dessa maneira, um exempl\u00e1rio do corpus de 900 coment\u00e1rios-troll selecionados m\u00eas de abril de 2020.<\/p>\n<p>A defini\u00e7\u00e3o desse n\u00famero limitado de tu\u00edtes est\u00e1 em conson\u00e2ncia com Moirand (2020), uma vez que, ao tratar da extens\u00e3o de corpora em ambiente digital, a referida linguista defende que o analista de discurso digital possa realizar seu estudo a partir do que ela denomina \u201cpequenos <em>corpora<\/em>\u201d. De acordo com Moirand (2020: 21), os pequenos <em>corpora <\/em>\u201cpossibilitam descrever as formas discursivas, raras ou n\u00e3o estabilizadas ainda, [&#8230;] bem como as rela\u00e7\u00f5es entre a linguagem verbal e o mundo (o ambiente, os objetos, os atores e suas a\u00e7\u00f5es\u201d. Dessa forma, optamos por compor um <em>corpus <\/em>de dois tu\u00edtes, considerando igualmente, na delimita\u00e7\u00e3o desse n\u00famero, a proje\u00e7\u00e3o de um estudo detalhado de cada tu\u00edte selecionado. Com isso, buscamos resolver a quest\u00e3o da quantidade de elementos de composi\u00e7\u00e3o do <em>corpus <\/em>problematizada por Paveau (2021).<\/p>\n<p>Destacamos que, durante nossa an\u00e1lise, encontramos diversos fen\u00f4menos tecnodiscursivos dentro desse ambiente digital, os quais expressam as caracter\u00edsticas pr\u00f3prias dos discursos digitais (composi\u00e7\u00e3o, deslineariza\u00e7\u00e3o, amplia\u00e7\u00e3o, relacionalidade, investigabilidade e imprevisibilidade). No entanto, direcionaremos nosso foco para os elementos observ\u00e1veis que correspondem aos objetivos espec\u00edficos desta pesquisa, isto \u00e9, buscaremos identificar marcas tecnodiscursivas que materializam os coment\u00e1rios-troll portadores de ciberviol\u00eancia discursiva selecionados.<\/p>\n<h3 id=\"-an\u00e1lise-e-discuss\u00e3o-dos-dad\">5. An\u00e1lise e discuss\u00e3o dos dados<\/h3>\n<p>Em uma abordagem ecol\u00f3gica, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel analisar as produ\u00e7\u00f5es tecnodiscursivas de forma isolada. Iniciaremos, nesse sentido, a an\u00e1lise dos dados pelo tu\u00edte que gerou os coment\u00e1rios-troll. Ele foi publicado por @oatila no dia 28, \u00e0s 8h22min, pelo aplicativo Twitter Web. Apresenta um formato conhecido como <em>thread<\/em>, ou seja, uma sequ\u00eancia em fio, dividida em duas janelas, cada uma contendo at\u00e9 280 caracteres. O primeiro tu\u00edte obteve 14,4 mil curtidas, 3.977 retu\u00edtes e 387 coment\u00e1rios, enquanto o segundo recebeu 2.744 curtidas, 468 retu\u00edtes e 39 coment\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-11251 size-full\" src=\"https:\/\/www.dorif.it\/reperes\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/nunes-fig-1.jpg\" alt=\"\" width=\"619\" height=\"387\" srcset=\"https:\/\/www.dorif.it\/reperes\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/nunes-fig-1-200x125.jpg 200w, https:\/\/www.dorif.it\/reperes\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/nunes-fig-1-300x188.jpg 300w, https:\/\/www.dorif.it\/reperes\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/nunes-fig-1-400x250.jpg 400w, https:\/\/www.dorif.it\/reperes\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/nunes-fig-1-600x375.jpg 600w, https:\/\/www.dorif.it\/reperes\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/nunes-fig-1.jpg 619w\" sizes=\"(max-width: 619px) 100vw, 619px\" \/>\u00a0<\/strong>Figura 1: Tu\u00edte de @oatila<br \/>\nFonte: @oatila (2020)<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Captura de tela realizada pela primeira autora em 16\/04\/2022<\/p>\n<p>Os dois tu\u00edtes desse <em>thread<\/em> apresentam texto escrito diretamente no Twitter, um link hipertextual e uma imagem fixa. Diante da discuss\u00e3o sobre a possibilidade de encerrar o isolamento social fomentada pelo Governo Federal<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, Atila Iamarino compartilha duas pesquisas cient\u00edficas que defendem a continuidade da quarentena no pa\u00eds. As informa\u00e7\u00f5es apresentadas t\u00eam como base dados cient\u00edficos e s\u00e3o divulgadas com o intuito de sustentar a import\u00e2ncia de manter as medidas de isolamento social.<\/p>\n<p>O primeiro tu\u00edte apresenta um estudo que visa explicar por que o Brasil \u00e9 considerado um dos epicentros da Covid-19 no mundo. O estudo \u00e9 baseado em uma nova proje\u00e7\u00e3o feita por pesquisadores do Imperial College London sobre o n\u00famero de \u00f3bitos para a pr\u00f3xima subsequente. O tu\u00edte inclui um hiperlink textual que leva diretamente ao local onde o relat\u00f3rio cient\u00edfico intitulado \u201cShort-term forecasts of COVID-19 deaths in multiple countries\u201d est\u00e1 publicado. Isso permite que o leitor acesse a pesquisa mencionada de forma imediata. O interlocutor, ao clicar no hiperlink, pode abrir uma nova janela em seu navegador sem precisar sair do ecossistema Twitter. Dessa forma, ele pode conferir a validade do argumento de autoridade apresentado pelo locutor, que se baseia no estudo mencionado.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m no primeiro tu\u00edte a inclus\u00e3o de uma imagem fixa logo abaixo do hiperlink, capturada diretamente pelo locutor usando o dispositivo utilizado para publicar o tu\u00edte, que exibe um trecho do relat\u00f3rio cient\u00edfico do Imperial College. A inser\u00e7\u00e3o da imagem fixa foi poss\u00edvel por meio do recurso \u201cM\u00eddia\u201d, uma funcionalidade tecnol\u00f3gica disponibilizada pela plataforma Twitter, que permitiu o carregamento da imagem para compor o tu\u00edte. Ela possibilita ao interlocutor visualizar parte do relat\u00f3rio no pr\u00f3prio tu\u00edte, sem sair do ecossistema de publica\u00e7\u00e3o (deslineriza\u00e7\u00e3o visual). No entanto, \u00e9 importante notar que a leitura \u00e9 filtrada pelo locutor, pois apenas trechos espec\u00edficos do relat\u00f3rio s\u00e3o exibidos na imagem. O objetivo \u00e9 enfatizar especialmente o excerto \u201cmuito grande em 2 pa\u00edses (&gt; 5000 mortes)\u201d referente ao Brasil e aos Estados Unidos da Am\u00e9rica. Esse trecho foi destacado com uma forma retangular de cor vermelha na imagem, fora do Twitter, no dispositivo de armazenamento da imagem. Essa estrat\u00e9gia visa corroborar os dados apresentados sobre o aumento de mortes relacionadas ao novo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>O segundo tu\u00edte dentro desse <em>thread<\/em> continua o assunto e apresenta um estudo realizado no Brasil por pesquisadores da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz &#8211; Fiocruz, que tamb\u00e9m projeta um aumento no n\u00famero de \u00f3bitos por Covid-19, por\u00e9m em escala menor. A estrutura desse tu\u00edte \u00e9 similar \u00e0 do primeiro, com texto escrito, um hiperlink textual (que permite a deslineariza\u00e7\u00e3o sintagm\u00e1tica) e uma imagem fixa (que possibilita a deslineariza\u00e7\u00e3o visual, PAVEAU 2021). Nesse caso, a imagem fixa exibe um gr\u00e1fico elaborado pela Fiocruz, que mostra a previs\u00e3o mensal do n\u00famero de \u00f3bitos, com destaque para a data de 28 de abril, quando os tu\u00edtes foram publicados. Esse gr\u00e1fico foi obtido da mesma forma que no tu\u00edte anterior: por meio da captura de tela realizada pelo locutor, dentro do ambiente de publica\u00e7\u00e3o do estudo na Fiocruz, e posterior armazenamento da imagem em seu dispositivo. Em seguida, a imagem foi inserida no tu\u00edte utilizando o recurso \u201cm\u00eddia\u201d disponibilizado pelo ecossistema do Twitter. Assim como no primeiro tu\u00edte, a imagem fixa serve para enfatizar e visualizar os dados referentes \u00e0 proje\u00e7\u00e3o de \u00f3bitos, fornecendo ao leitor uma perspectiva clara da previs\u00e3o de 5.017 prov\u00e1veis \u00f3bitos para a data de 28 de abril.<\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o desse <em>thread <\/em>ocasionou muitas rea\u00e7\u00f5es negativas e de contraposi\u00e7\u00e3o ao conte\u00fado do tu\u00edte por internautas e usu\u00e1rios do Twitter que negavam o conhecimento cient\u00edfico nesse per\u00edodo, permitindo a materializa\u00e7\u00e3o dos coment\u00e1rios-troll.<\/p>\n<p>O primeiro coment\u00e1rio-troll foi publicado no dia 28 de abril somente com texto verbal. Ele recebeu 16 curtidas, nenhum coment\u00e1rio e nenhum retu\u00edte.<\/p>\n<p><strong> <img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-11252 size-full\" src=\"https:\/\/www.dorif.it\/reperes\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/nunes-fig-2.jpg\" alt=\"\" width=\"424\" height=\"527\" srcset=\"https:\/\/www.dorif.it\/reperes\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/nunes-fig-2-200x249.jpg 200w, https:\/\/www.dorif.it\/reperes\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/nunes-fig-2-241x300.jpg 241w, https:\/\/www.dorif.it\/reperes\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/nunes-fig-2-400x497.jpg 400w, https:\/\/www.dorif.it\/reperes\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/nunes-fig-2.jpg 424w\" sizes=\"(max-width: 424px) 100vw, 424px\" \/><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Figura 2: Coment\u00e1rio-troll<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> 1<br \/>\nFonte: @oatila (2020)<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. Captura de tela realizada pela primeira autora em 16\/04\/2022<\/p>\n<p>Esse coment\u00e1rio-troll \u00e9 introduzido com um ataque pessoal direto \u00e0 @oatila. Por meio do pronome \u201cvoc\u00ea\u201d, implicando o seu interlocutor, seguido do verbo de liga\u00e7\u00e3o \u201c\u00e9\u201d, que indica a qualidade negativa em estado permanente dada pelo locutor, e do predicativo do sujeito \u201cs\u00f3 mais um maluco da Internet q n\u00e3o sabe oq fala\u201d, h\u00e1 uma tentativa de depreciar o of\u00edcio de divulgador cient\u00edfico, atuante no ambiente digital.<\/p>\n<p>Desse modo, em \u201c<u>Voc\u00ea \u00e9 s\u00f3 mais um maluco da Internet q n\u00e3o sabe oq fala<\/u>\u201d, o locutor-agressor intenciona desdenhar o interlocutor, concedendo-lhe um lugar comum e de desprezo, na medida em que ignora a forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e o trabalho de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de @oatila antes e durante a pandemia, optando por classific\u00e1-lo ofensivamente enquanto \u201cs\u00f3 mais um maluco\u201d inserido no digital. O Dicion\u00e1rio On-line de L\u00edngua Portuguesa<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> define o adjetivo \u201c<u>maluco<\/u>\u201d como algu\u00e9m \u201csem ju\u00edzo, desequilibrado, louco, doido, aquele que se comporta sem nexo, ju\u00edzo ou seriedade\u201d. J\u00e1 o Dicion\u00e1rio InFormal apresenta a seguinte defini\u00e7\u00e3o: \u201cMaluco \u00e9 uma pessoa normal dependente de um mundo completamente vazio de seu ser!\u201d. Logo, essa express\u00e3o \u00e9 empregada nessas circunst\u00e2ncias para depreciar a pessoa e o trabalho de populariza\u00e7\u00e3o cient\u00edfica desenvolvido por Atila.<\/p>\n<p>Em seguida, a uni\u00e3o da suposi\u00e7\u00e3o \u201c<u>deve viver nesse mundo virtual<\/u>\u201d com a injun\u00e7\u00e3o \u201c<u>se informe sai desse mundo de N\u00e1rnia que vive<\/u>\u201d, estabelecendo ao interlocutor a a\u00e7\u00e3o de sair do mundo de N\u00e1rnia a ser realizada, demonstra a falta de compreens\u00e3o do trabalho de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica desempenhado por Atila Iamarino e a priva\u00e7\u00e3o de entendimento do pr\u00f3prio funcionamento da ci\u00eancia. Ainda, podemos inferir que, pelo fen\u00f4meno da interdiscursividade, o locutor-agressor evidencia um alinhamento de forma\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica com o ex-presidente do Brasil Jair Messias Bolsonaro, uma vez que o mandat\u00e1rio exp\u00f4s publicamente por diversas vezes, antes da publica\u00e7\u00e3o desse coment\u00e1rio-troll, seu ponto de vista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma de enfrentar a pandemia, a qual, para ele, deveria ser encarada com a realidade. Dentre as suas declara\u00e7\u00f5es nessa linha de racioc\u00ednio, no dia 30 de mar\u00e7o, em uma coletiva de imprensa em frente ao Pal\u00e1cio da Alvorada, em Bras\u00edlia, Bolsonaro afirmou: \u201cEssa \u00e9 uma realidade, o v\u00edrus t\u00e1 a\u00ed. Vamos ter que enfrent\u00e1-lo, mas enfrentar como homem, porra. N\u00e3o como um moleque. Vamos enfrentar o v\u00edrus com a realidade. \u00c9 a vida. Tomos n\u00f3s iremos morrer um dia\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Assim, o locutor-agressor, diante do evidente desconhecimento do pr\u00f3prio papel da ci\u00eancia e de seus comunicadores, estando possivelmente filiado aos m\u00e9todos de combate \u00e0 pandemia adotados por Bolsonaro, afirma que o seu interlocutor est\u00e1 no \u201cmundo de N\u00e1rnia\u201d. N\u00e1rnia \u00e9 um mundo fict\u00edcio retratado nas sete obras do escritor irland\u00eas Clive Staples Lewis, conhecidas como \u201cAs cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia\u201d, nas quais esse lugar \u00e9 considerado um planeta fant\u00e1stico, cheio de mist\u00e9rios e m\u00e1gicas, habitado por criaturas mitol\u00f3gicas. Ao encontro dessa ideia de fantasia e irrealidade, a express\u00e3o \u201cmundo de N\u00e1rnia\u201d passou a ser utilizada pelos falantes da l\u00edngua portuguesa para se referir a algu\u00e9m que est\u00e1 longe da realidade, inclusive, o pr\u00f3prio Dicion\u00e1rio InFormal de L\u00edngua Portuguesa j\u00e1 apresenta este significado para \u201cN\u00e1rnia\u201d: \u201cQuando a pessoa est\u00e1 em outra dimens\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Em uma tentativa de contrapor o lugar fantasioso e distante da realidade atribu\u00eddo ao seu interlocutor, o locutor-agressor busca construir uma imagem de trabalhador, de quem enfrenta a realidade, quando afirma: \u201cnunca tive nada de ningu\u00e9m tudo conquistei foi com muita luta e trabalho e respeito a lei\u201d. H\u00e1 um movimento do locutor de marcar as diferen\u00e7as entre ele e seu interlocutor, pois contraria com essa afirma\u00e7\u00e3o a qualifica\u00e7\u00e3o negativa que concedeu anteriormente ao outro; em outras palavras, o locutor-agressor desqualifica a pessoa de seu interlocutor e, ao mesmo tempo, constr\u00f3i uma ant\u00edtese entre os dois modos de ver e agir no mundo. Temos, assim, uma configura\u00e7\u00e3o antag\u00f4nica criada pelo locutor-agressor, o qual institui o interlocutor enquanto sujeito que vive em um mundo fantasioso e, em oposi\u00e7\u00e3o, autodenomina-se sujeito trabalhador, de luta e que respeita a lei, logo, deixa impl\u00edcito que vive num mundo real.<\/p>\n<p>Esse coment\u00e1rio com rea\u00e7\u00e3o negativa ao <em>thread<\/em> de @oatila \u2013 que tem como objetivo informar duas pesquisas com proje\u00e7\u00f5es n\u00e3o otimistas a respeito do n\u00famero de \u00f3bitos decorrentes da Covid-19 e defender a ci\u00eancia \u2013 nomeia ainda o conte\u00fado publicado de \u201cbesteira\u201d, a fim de desconsiderar os fatos cient\u00edficos informados e anular a idoneidade de Atila na sele\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o da novidade cient\u00edfica, j\u00e1 que, de acordo com o Dicion\u00e1rio On-line de L\u00edngua Portuguesa (2023: n. p.), dizer \u201cbesteira\u201d \u00e9 o mesmo que \u201cbobagens, burrices, estupidezes, tolices\u201d, e para o Dicion\u00e1rio InFormal<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>, \u201cbesteira\u201d significa aus\u00eancia de ideias, tolices.<\/p>\n<p>Desse modo, todo o enunciado est\u00e1 para desqualificar a pessoa de Atila Iamarino, n\u00e3o s\u00f3 como divulgador cient\u00edfico, mas enquanto pessoa, porque tais express\u00f5es ofensivas n\u00e3o se restringem ao teor do conte\u00fado publicado ou aos m\u00e9todos empregados pelo divulgador para selecion\u00e1-lo ou apresent\u00e1-lo, elas entram no terreno pessoal.<\/p>\n<p>O conjunto de ataques insultantes manifestado no coment\u00e1rio-troll em an\u00e1lise faz surgir o fen\u00f4meno do <em>flaming <\/em>(PAVEAU 2021), primeiro pela sua caracter\u00edstica principal de ser endere\u00e7ado diretamente a algu\u00e9m, em segunda pessoa, depois pelo seu car\u00e1ter inflamado e agressivo que pode promover um linchamento on-line no ecossistema de publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O segundo coment\u00e1rio-troll direcionado ao tu\u00edte de @oatila foi publicado no dia 29 de abril de 2020, recebeu 1 curtida, nenhum retu\u00edte e nenhum coment\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-11253 size-full\" src=\"https:\/\/www.dorif.it\/reperes\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/nunes-fig-3.jpg\" alt=\"\" width=\"414\" height=\"519\" srcset=\"https:\/\/www.dorif.it\/reperes\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/nunes-fig-3-200x251.jpg 200w, https:\/\/www.dorif.it\/reperes\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/nunes-fig-3-239x300.jpg 239w, https:\/\/www.dorif.it\/reperes\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/nunes-fig-3-400x501.jpg 400w, https:\/\/www.dorif.it\/reperes\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/nunes-fig-3.jpg 414w\" sizes=\"(max-width: 414px) 100vw, 414px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Figura 3: Coment\u00e1rio-troll 2<br \/>\nFonte: @oatila (2020)<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. Captura de tela realizada pela primeira autora em 16\/04\/2022<\/p>\n<p>Com a materializa\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia somente em texto verbal, temos um coment\u00e1rio-troll escrito por um usu\u00e1rio do Twitter que escolhe a bandeira do Brasil para ocupar o espa\u00e7o de sua foto de perfil. A bandeira do Brasil passou a ser uma marca de posicionamento pol\u00edtico de parte da popula\u00e7\u00e3o, aquela que apoiou Bolsonaro em suas decis\u00f5es anticient\u00edficas e negacionistas, utilizada nos ecossistemas digitais e em outros espa\u00e7os, desde o movimento \u201cVem Pra Rua\u201d, considerado por Rocha, Klein (2018: 93), juntamente com os movimentos \u201cRevoltados on-line\u201d e \u201cMovimento Livre Brasil\u201d (MBL), como o \u201cembri\u00e3o pol\u00edtico operacional dos grupos neoconservadores\u201d. Desse modo, a sele\u00e7\u00e3o da imagem de perfil n\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3ria, e isso s\u00f3 se comprova com o conte\u00fado insultuoso do coment\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u201c<u>Vai tomar no seu cu, seu fals\u00e1rio do kralho<\/u>\u201d \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o hostil e de baixo cal\u00e3o que introduz esse coment\u00e1rio-troll. A palavra \u201ccu\u201d, de origem do latim vulgar, vem de \u201cculus\u201d, que significa \u201c\u00e2nus\u201d, orif\u00edcio localizado no fim do intestino grosso para eliminar os excrementos. Esse voc\u00e1bulo que remete \u00e0 parte da anatomia foi incorporado \u00e0 express\u00e3o \u201cVai tomar no cu\u201d, empregada pelos falantes do portugu\u00eas brasileiro como forma popular de xingamento e desafeto. Na realiza\u00e7\u00e3o desse insulto, o locutor-agressor implica seu interlocutor pela injun\u00e7\u00e3o expressa em \u201cvai tomar no seu cu\u201d, seguida do vocativo \u201cseu fals\u00e1rio do kralho\u201d, para caracteriz\u00e1-lo enquanto sujeito que comete falsidades, logo, n\u00e3o confi\u00e1vel. O termo \u201cKralho\u201d \u00e9 a abrevia\u00e7\u00e3o de \u201ccaralho\u201d, que remete ao \u00f3rg\u00e3o sexual masculino, e define-se enquanto g\u00edria utilizada para expressar um ato de indigna\u00e7\u00e3o, admira\u00e7\u00e3o ou surpresa, nesse caso, o ato pode ser de indigna\u00e7\u00e3o. Todavia, conforme Basso (2018), \u00e9 importante destacar que palavr\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o simplesmente express\u00f5es ruins utilizadas por pessoas moralmente fracas; ao contr\u00e1rio, levantam quest\u00f5es intrigantes. Os palavr\u00f5es s\u00e3o elementos complexos, influenciados pela din\u00e2mica social e cultural, e sua compreens\u00e3o vai al\u00e9m de simples julgamentos morais.<\/p>\n<p>O per\u00edodo \u201c<u>Est\u00e3o pipocando centenas de den\u00fancias sobre mortes por outras doen\u00e7as como sendo pelo v\u00edrus chin\u00eas<\/u>\u201d permite-nos entender o contexto de negacionismo fomentado pelo ex-presidente Jair Messias Bolsonaro e demais membros do governo, assim como o aumento massivo de circula\u00e7\u00e3o de desinforma\u00e7\u00e3o e de teorias da conspira\u00e7\u00e3o nos ecossistemas digitais. Isso porque foi compartilhada a <em>fake news<\/em> de que \u00f3bitos em decorr\u00eancia de outras doen\u00e7as estavam sendo contabilizadas como consequ\u00eancias da Covid-19, para usufruir do benef\u00edcio enviado pelo Governo Federal de 12 mil reais a hospitais por cada morte pelo novo coronav\u00edrus<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. O pr\u00f3prio ex-presidente fez v\u00e1rias declara\u00e7\u00f5es de que o n\u00famero de \u00f3bitos era superestimado, uma delas foi realizada dias antes da publica\u00e7\u00e3o do coment\u00e1rio analisado, no dia 27 de mar\u00e7o de 2020. Na ocasi\u00e3o, Bolsonaro acusou<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a> os estados brasileiros de estarem fraudando o n\u00famero de \u00f3bitos para fazer \u201cuso pol\u00edtico\u201d. Alinhado a esse discurso conspiracionista, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade afirmou<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>, pela voz do Secret\u00e1rio Carlos Wizard, que haveria uma recontagem do n\u00famero \u201cfantasioso\u201d de mortes por Covid-19. Essa teoria foi rapidamente aceita e compartilhada pelos apoiadores de Bolsonaro nas redes sociais, fato comprovado nesse coment\u00e1rio. Outra marca de filia\u00e7\u00e3o ao espectro pol\u00edtico de extrema-direita \u00e9 a inser\u00e7\u00e3o da express\u00e3o \u201cv\u00edrus chin\u00eas\u201d nesse enunciado, pois ela faz parte de um campo sem\u00e2ntico pertencente a esse grupo pol\u00edtico-ideol\u00f3gico, que culpabilizava a China e os chineses pela crise de sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Esse coment\u00e1rio-troll \u00e9 finalizado pelo per\u00edodo ofensivo \u201c<u>V\u00e1 pra puta que o pariu com essa ladainha<\/u>\u201d, seguido do per\u00edodo \u201c<u>respeite as fam\u00edlias de quem morre pelo menos<\/u>\u201d, que estabelece ao interlocutor uma a\u00e7\u00e3o a realizar, deixando impl\u00edcito que @oatila n\u00e3o respeita o momento de dor vivenciado por familiares dos falecidos. \u201cV\u00e1 pra puta que te pariu\u201d \u00e9 uma forma de xingamento utilizada, conforme o Dicion\u00e1rio InFormal de L\u00edngua Portuguesa (2023: n. p.), \u201cquando uma pessoa est\u00e1 irritada com algu\u00e9m\u201d. Al\u00e9m disso, esse coment\u00e1rio-troll exemplifica como palavras consideradas ofensivas podem ser inseridas em um contexto espec\u00edfico, revelando nuances das rela\u00e7\u00f5es interpessoais e evidenciando a complexidade da linguagem ofensiva, conforme destaca Basso (2018) em sua reflex\u00e3o sobre os palavr\u00f5es.<\/p>\n<p>Podemos observar, nesse enunciado, que o locutor-agressor classifica como \u201cessa ladainha\u201d a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dos resultados de duas proje\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, posicionando-se claramente em defesa de uma pauta conspiracionista e negacionista defendida pelo Governo Federal, em detrimento do conhecimento cient\u00edfico informado pelo divulgador cient\u00edfico Atila Iamarino.<\/p>\n<p>O <em>flaming<\/em> (PAVEAU 2021), enquanto categoria da ciberviol\u00eancia discursiva, manifesta-se nesse coment\u00e1rio de forma sistem\u00e1tica, com insultos e afirma\u00e7\u00f5es conspirat\u00f3rias endere\u00e7ados a um interlocutor que se coloca no campo oposto ao do locutor.<\/p>\n<h3 id=\"considera\u00e7\u00f5es-finais\">Considera\u00e7\u00f5es finais<\/h3>\n<p>Nesta pesquisa, que tinha o prop\u00f3sito de identificar marcas tecnodiscursivas de ciberviol\u00eancia discursiva em um exempl\u00e1rio composto de dois coment\u00e1rios-troll, pudemos identificar que os ataques insultuosos partiram de indiv\u00edduos que negam a ci\u00eancia e foram, em grande parte, uma rea\u00e7\u00e3o ao <em>thread<\/em> de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica publicado por @oatila no Twitter.<\/p>\n<p>As marcas tecnodiscursivas encontradas nos coment\u00e1rios portadores de ciberviol\u00eancia discursiva s\u00e3o diversas, desde escolhas lexicais com valor axiol\u00f3gico negativo at\u00e9 constru\u00e7\u00f5es fr\u00e1sticas com teor depreciativo. Nos coment\u00e1rios de an\u00e1lise, escritos exclusivamente em texto verbal, identificamos claramente a a\u00e7\u00e3o conjunta dos internautas usu\u00e1rios do Twitter, utilizando m\u00e3o e m\u00e1quina, com a rede social para realizar a viol\u00eancia verbal. Desse modo, esse fen\u00f4meno tecnodiscursivo s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0s possibilidades oferecidas pelo ecossistema de publica\u00e7\u00e3o, que viabiliza e impulsiona, pela a\u00e7\u00e3o de escrever um coment\u00e1rio em um espa\u00e7o espec\u00edfico e endere\u00e7ado a outro usu\u00e1rio, a ciberviol\u00eancia no Twitter.<\/p>\n<p>Identificamos, al\u00e9m disso, que esses coment\u00e1rios-troll foram motivados sobretudo por pautas anticient\u00edficas defendidas pela extrema-direita brasileira durante o primeiro semestre de pandemia no pa\u00eds. H\u00e1 marcas que evidenciam um posicionamento pol\u00edtico-ideol\u00f3gico pertencente a um grupo que negava a ci\u00eancia, atacava os cientistas e os divulgadores de ci\u00eancia, assim como defendia uma agenda ancorada pelo pseudocientificismo e pela desinforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os coment\u00e1rios-troll analisados revelam um comportamento agressivo e ofensivo por parte dos locutores-agressores. Ambos os coment\u00e1rios evidenciam a presen\u00e7a do <em>flaming, <\/em>categoria da ciberviol\u00eancia discursiva que \u00e9 caracterizada pelo discurso agressivo e inflamado direcionado a um interlocutor espec\u00edfico. As ofensas pessoais, a dissemina\u00e7\u00e3o de desinforma\u00e7\u00e3o e a ordem desrespeitosa presentes nesses coment\u00e1rios refletem a hostilidade dos locutores-agressores. \u00c9 relevante refletir que esse comportamento contribuiu para a cria\u00e7\u00e3o de um ambiente t\u00f3xico e prejudicial ao bom andamento das discuss\u00f5es cient\u00edficas sobre Covid-19 entre @oatila, seus seguidores e demais usu\u00e1rios do Twitter.<\/p>\n<p>Ante o exposto, entendemos que a ciberviol\u00eancia discursiva se materializa, portanto, pelo <em>flaming <\/em>realizado em coment\u00e1rios-troll dirigidos a um internauta e usu\u00e1rio do Twitter que assume a posi\u00e7\u00e3o de porta-voz da ci\u00eancia. Ela surge unicamente da conex\u00e3o intr\u00ednseca entre o usu\u00e1rio da rede social, a pr\u00f3pria rede social e o dispositivo utilizado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 id=\"refer\u00eancias\">Refer\u00eancias<\/h3>\n<p>AMARAL, Adriana, QUADROS, Claudia de. \u00abAgruras do Blog: o jornalismo cor-de-rosa no ciberespa\u00e7o?\u00bb, <em>Raz\u00f3n y Palabra<\/em>, n. 53, 2006,<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.razonypalabra.org.mx\/anteriores\/n53\/amaralquadros.html\">http:\/\/www .razonypalabra.org.mx\/anteriores\/n53\/amaralquadros.html<\/a>. Acesso em: 30 jun. 2023.<\/p>\n<p>AMOSSY, Ruth, \u00abCoexistence in dissensos\u00bb, <em>Semen<\/em>, n. 31, 2011,<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/journals.openedition.org\/semen\/9051\">http:\/\/journals.openedition.org\/semen\/9051<\/a>. Acesso em: 30 jun. 2023.<\/p>\n<p>BASSO, Renato Miguel, \u00abPalavr\u00e3o \u00e9 legal pra caral*o!\u00bb <em>Roseta<\/em>, n. 2, 2018, <a href=\"https:\/\/www.roseta.org.br\/2018\/08\/17\/palavrao-e-legal-pra-caralo\/\">https:\/\/www.roseta.org.br\/2018\/08\/17\/palavrao-e-legal-pra-caralo\/<\/a>. Acesso em: 30 set. 2023.<\/p>\n<p>BARONAS, Roberto Leiser, \u00abRessignifica\u00e7\u00e3o discursiva em diferentes contextos: lingu\u00edstica popular e ludolingu\u00edstas\u00bb, <em>Porto Das Letras<\/em>, n. 7, 2021, p. 104-128,<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/sistemas.uft.edu.br\/periodicos\/index.php\/portodasletras\/article\/view\/13078\">https:\/\/sistemas.uft.edu.br\/periodicos\/index.php\/portodasletras\/article\/view\/13078<\/a>. Acesso em: 30 jun. 2023.<\/p>\n<p>CABRAL, Ana L\u00facia Tinoco, LIMA, Nelci Vieira de, \u00abArgumenta\u00e7\u00e3o e pol\u00eamica nas redes sociais: o papel da viol\u00eancia verbal\u00bb, <em>Signo<\/em>, v. 42, n. 73, 2017, p. 86-97,<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/online.unisc.br\/seer\/index.php\/signo\/article\/view\/8004\">https:\/\/online.unisc.br\/seer\/index.php\/signo\/article\/view\/8004<\/a>. Acesso em: 10 fev. 2023.<\/p>\n<p>CAMPANI, Daiana, GIERING, Maria Eduarda, \u00abArgumenta\u00e7\u00e3o em tu\u00edtes sobre ci\u00eancia na pandemia\u00bb, <em>Revista Eletr\u00f4nica De Estudos Integrados Em Discurso E Argumenta\u00e7\u00e3o<\/em>, n. 22, 2022, p. 16-39, <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.47369\/eidea-22-esp.-3542\">https:\/\/doi.org\/10.47369\/eidea-22-esp.-3542<\/a>. Acesso em: 30 jun. 2023.<\/p>\n<p>COSTA, Julia Louren\u00e7o, GL\u00dcCK, Eduardo Par\u00e9, \u00abImagem digital: entre divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e redes sociais\u00bb, <em>F\u00f3rum Lingu\u00edstico<\/em>, n. 18, 2021,<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/periodicos.ufsc.br\/index.php\/forum\/article\/view\/79650\">https:\/\/periodicos.ufsc.br\/index.php\/forum\/article\/view\/79650<\/a>. Acesso em: 30 out. 2023.<\/p>\n<p>COSTA, Julia Louren\u00e7o, PAVEAU, Marie-Anne, \u00abImagem e discurso. Uma enuncia\u00e7\u00e3o material visual\u00bb,\u00a0 <em>F\u00f3rum Lingu\u00edstico<\/em>, n. 18, 2021,<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/periodicos.ufsc.br\/index.php\/forum\/article\/view\/82170\">https:\/\/periodicos.ufsc.br\/index.php\/forum\/article\/view\/82170<\/a>. 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Acesso em: 30 jun. 2023.<\/p>\n<p>GL\u00dcCK, Eduardo Par\u00e9 et al., \u00abO tecnodiscurso de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica: rela\u00e7\u00f5es ret\u00f3ricas e deslineariza\u00e7\u00e3o em hiperliga\u00e7\u00f5es de not\u00edcias digitais\u00bb, <em>ALFA: Revista de Lingu\u00edstica<\/em>, S\u00e3o Paulo, v. 66, 2022,<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/periodicos.fclar.unesp.br\/alfa\/article\/view\/14231\">https:\/\/periodicos.fclar.unesp.br\/alfa\/article\/view\/14231<\/a>. Acesso em: 30 jun. 2023.<\/p>\n<p>LATOUR, Bruno, \u00ab<em>Reagregando o Social:<\/em> uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 teoria do Ator-Rede\u00bb, Trad. Gilson C\u00e9sar Cardoso DE SOUZA, S\u00e3o Paulo, Edusc, 2012.<\/p>\n<p>L\u00c9VY, Pierre, \u00abCibercultura\u00bb, 3 ed., Trad. Carlos Irineu DA COSTA, S\u00e3o Paulo, Editora 34, 2018.<\/p>\n<p>MEIRELLES, Pedro, \u00abPrincipais vozes da ci\u00eancia no Twitter<em>:<\/em> Mapeando a conversa de cientistas e especialistas sobre a COVID-19\u00bb, in <em>Instituto Brasileiro de Pesquisa e An\u00e1lise de Dados<\/em> (IBPAD), Bras\u00edlia, 2020.<\/p>\n<p>MOIRAND, Sophie, \u00abA contribui\u00e7\u00e3o do pequeno corpus na compreens\u00e3o dos fatos da atualidade\u00bb, <em>Revista Linguasagem<\/em>, v. 36, 2020, p. 20-41,<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.linguasagem.ufscar.br\/index.php\/linguasagem\/article\/view\/826\">https:\/\/www.linguasagem.ufscar.br\/index.php\/linguasagem\/article\/view\/826<\/a>. Acesso em: 30 jun. 2023.<\/p>\n<p>NUNES, Dieila dos Santos, GIERING, Maria Eduarda, \u00abPseudonymity as a democratic practice for the extimacy discourse in favor of the vaccination against Covid-19\u00bb, <em>F\u00f3rum Lingu\u00edstico<\/em>, v. 19, n. 4, 2022, p. 8555-8570, https:\/\/periodicos.ufsc. br\/index.php\/forum\/ article\/view\/84359. Acesso em: 30 jun. 2023.<\/p>\n<p>PAVEAU, Marie-Anne, \u00abTechnodiscursivit\u00e9s natives sur Twitter: une \u00e9cologie du discours num\u00e9rique\u00bb, <em>Epist\u00e9m\u00e8: Revue internationale de sciences humaines et sociales appliqu\u00e9es, S\u00e9oul<\/em>\u00bb, [S.l.], n. 9, 2013, p. 139-176,\u00a0 <a href=\"https:\/\/hal.archives-ouvertes.fr\/hal-00859064\/document\">https:\/\/hal.archives-ouvertes.fr\/hal-00859064\/document<\/a>. Acesso em: 10 fev. 2023.<\/p>\n<p>PAVEAU, Marie-Anne, \u00abLes Pr\u00e9discours: sens, m\u00e9moire, cognition\u00bb, Paris, Presses de la Sorbonne Nouvelle, 2017, <a href=\"https:\/\/books.openedition.org\/psn\/722\">https:\/\/books.openedition.org\/psn\/722<\/a>. Acesso em: 30 jun. 2023.<\/p>\n<p>PAVEAU, Marie-Anne, <em>An\u00e1lise do discurso digital: dicion\u00e1rio das formas e das pr\u00e1ticas<\/em>, Campinas, S\u00e3o Paulo, Editora Pontes, 2021.<\/p>\n<p>PAVEAU, Marie-Anne, COSTA, Julia Louren\u00e7o, <em>Ressignifica\u00e7\u00e3o em contexto digital<\/em>, S\u00e3o Carlos, Editora EDUFSCAR, 2021.<\/p>\n<p>REBS, Rebeca Recuero, ERNST, Aracy, \u00abHaters e o discurso de \u00f3dio: entendendo a viol\u00eancia em sites de redes sociais\u00bb, <em>Di\u00e1logo das letras<\/em>, 2, 2017, p. 24-44.<\/p>\n<p>ROCHA, Bruno Lima, CALDAS, J\u00falia Klein, \u00abA mobiliza\u00e7\u00e3o digital atrav\u00e9s das redes sociais: a fr\u00e1gil estrutura que possibilita uma janela de oportunidades aproveitada pela nova direita no Brasil\u00bb, <em>Eptic On-Line<\/em>, v. 20, 2018, p. 87-102,<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/periodicos.ufs.br\/eptic\/article\/view\/9618\/7451\">https:\/\/periodicos.ufs.br\/eptic\/article\/view\/9618\/7451<\/a>. Acesso em: 30 jun. 2023.<\/p>\n<p>SEARA, Isabel Roboredo, \u00abLiga\u00e7\u00f5es vertiginosas: viol\u00eancia verbal em \u2018coment\u00e1rios\u2019 nas redes sociais\u00bb, <em>Calidosc\u00f3pio<\/em>, n. 3, 2021, p. 385-397,<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/revistas.unisinos.br\/index.php\/calidoscopio\/article\/view\/23263\">https:\/\/revistas.unisinos.br\/index.php\/calidoscopio\/article\/view\/23263<\/a>. Acesso em: 30 jun. 2023.<\/p>\n<p>SOUZA, Juliana Alles de Camargo, \u00abA escritovisualidade tecnogr\u00e1fica da revista Pesquisa Fapesp no Instagram\u00bb, <em>Calidosc\u00f3pio<\/em>, n. 19, 2021, 345-357,<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/revistas.unisinos.br\/index.php\/calidoscopio\/article\/view\/23175\">https:\/\/revistas.unisinos.br\/index.php\/calidoscopio\/article\/view\/23175<\/a>.\u00a0 Acesso em: 30 jun. 2023.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Atila Iamarino \u00e9 um microbiologista brasileiro e divulgador cient\u00edfico. Concluiu o bacharelado em Biologia na Universidade de S\u00e3o Paulo em 2006, seguido pelo doutorado em Microbiologia, com defesa de tese em 2012. Em 2008, Atila idealizou e criou, juntamente com o professor Carlos Takeshi Hotta (USP), o ScienceBlogs Brasil, o maior blog de ci\u00eancias do mundo, e posteriormente lan\u00e7ou o ScienceVlogs Brasil em 2016. Em 2010, iniciou o canal Nerdologia no YouTube, focado em conte\u00fado cient\u00edfico ao p\u00fablico n\u00e3o especializado, e em 2012 criou o canal Atila Iamarino, que tem como descri\u00e7\u00e3o \u201cDivulgador cient\u00edfico e explicador do mundo por op\u00e7\u00e3o\u201d. Reconhecido por suas contribui\u00e7\u00f5es para a comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica da ci\u00eancia no Brasil, Atila foi considerado a voz mais influente na discuss\u00e3o sobre Covid-19 no Twitter em 2020, de acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa e An\u00e1lise de Dados (IBPAD) em parceria com o Science Pulse, ocupando a primeira posi\u00e7\u00e3o no ranking geral (MEIRELLES 2020).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Assumimos a postula\u00e7\u00e3o de Paveau (2021), de que os discursos digitais nativos s\u00e3o comp\u00f3sitos, uma vez que s\u00e3o constitu\u00eddos de mat\u00e9ria mista, reunindo o linguageiro e o tecnol\u00f3gico de natureza inform\u00e1tica. Isso caracteriza uma composi\u00e7\u00e3o tecnolinguageira, com marca tecnodiscursiva, que pode ser plurissemi\u00f3tica, ao mobilizar, em uma mesma semiose, texto, imagem fixa ou animada, som (PAVEAU 2021; GIERING, PINTO 2021). Desse modo, consoante Paveau (2021), as marcas linguageiras comp\u00f5em-se de mat\u00e9ria mista entre o lingu\u00edstico e o tecnol\u00f3gico, sendo end\u00eamicas ao discurso digital nativo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Embora o atual dono do <em>Twitter<\/em>, Elon Musk, tenha anunciado, em 24 de julho de 2023, a implementa\u00e7\u00e3o do nome <em>X <\/em>\u00e0 rede social (<a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/tecnologia\/noticia\/2023\/07\/elon-musk-inicia-mudanca-do-nome-do-twitter-para-x-clkgq5s2m00030154p8pe3doa.html\">https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/tecnologia\/noticia\/2023\/07\/elon-musk-inicia-mudanca-do-nome-do-twitter-para-x-clkgq5s2m00030154p8pe3doa.html<\/a>), optamos por manter a nomenclatura anterior, Twitter, visto que, na gera\u00e7\u00e3o dos dados, esse era o nome da plataforma.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/twitter.com\/oatila\/status\/1255276160709263360\">https:\/\/twitter.com\/oatila\/status\/1255276160709263360<\/a>. Acesso em 16 abr. 2022.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> O Governo Bolsonaro (2019-2022), durante a pandemia de Covid-19 no Brasil, negou a gravidade do v\u00edrus, chamou a Covid-19 de \u201cgripezinha\u201d em pronunciamento oficial na televis\u00e3o e em <em>live <\/em>realizada nas redes sociais. A BBC News Brasil compilou em v\u00eddeo dois momentos nos quais Jair Bolsonaro utilizou a express\u00e3o \u201cgripezinha\u201d para se referir \u00e0 Covid-19:\u00a0 <u>https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/ brasil-55107536<\/u>. Acesso em: 05 jan. 2021. O ex-presidente Jair Messias Bolsonaro tamb\u00e9m incentivou o n\u00e3o respeito \u00e0s orienta\u00e7\u00f5es da OMS para a preven\u00e7\u00e3o da Covid-19, como pode ser consultado em: <u>https:\/\/g1.globo.com\/ politica\/noticia\/2020\/08\/19\/bolsonaro-contraria-ciencia-e-diz-a-apoiadores-que-eficacia-de-mascara-e-quase-nenhuma.ghtml<\/u>. Acesso em: 06 jan. 2021. Al\u00e9m disso, promoveu o chamado \u201cKit Covid\u201d -composto de Ivermectina, Cloroquina e Hidroxicloroquina, embora as evid\u00eancias cient\u00edficas mostrassem a n\u00e3o efic\u00e1cia e os riscos da ingest\u00e3o desses medicamentos de modo sistem\u00e1tico: <u>https:\/\/oglobo.globo.com\/ politica\/bolsonaro-defendeu-uso-de-cloroquina-em-23-discursos-oficiais-leia-as-frases-25025384<\/u>. Acesso em: 03 jun. 2021.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Para preservar a identidade dos usu\u00e1rios do Twitter que possivelmente apresentam a identidade oficial, utilizaremos uma tarja em cima da foto e do nome de perfil.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/twitter.com\/oatila\/status\/1255276160709263360\">https:\/\/twitter.com\/oatila\/status\/1255276160709263360<\/a>. Acesso em 16 abr. 2022.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.dicionarioinformal.com.br\/maluco\/\">https:\/\/www.dicionarioinformal.com.br\/maluco\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a>\u00a0 Declara\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=unjwCA9RdSk\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=unjwCA9RdSk<\/a>. Acesso em: 13 fev. 2023. As falas anticient\u00edficas e pol\u00eamicas do ex-presidente Bolsonaro foram registradas pelos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o. O jornal Folha de S\u00e3o Paulo compilou 15 frases que demonstram o desprezo e a neglig\u00eancia de Bolsonaro no enfrentamento \u00e0 pandemia: <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2023\/05\/em-15-frases-relembre-desprezo-de-bolsonaro-pela-pandemia-da-covid-19.shtml\">https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2023\/05\/em-15-frases-relembre-desprezo-de-bolsonaro-pela-pandemia-da-covid-19.shtml<\/a>. Acesso em: 05 dez. 2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.dicionarioinformal.com.br\/besteira\/\">https:\/\/www.dicionarioinformal.com.br\/besteira\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/twitter.com\/oatila\/status\/1255276160709263360\">https:\/\/twitter.com\/oatila\/status\/1255276160709263360<\/a>. Acesso em 16 abr. 2022.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Fake news desmentida pelo G1: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/fato-ou-fake\/coronavirus\/noticia\/2020\/05\/18\/e-fake-que-ministerio-da-saude-repassa-r-12-mil-a-hospitais-por-cada-morte-por-covid-19.ghtml\">https:\/\/g1.globo.com\/fato-ou-fake\/coronavirus\/noticia\/2020\/05\/18\/e-fake-que-ministerio-da-saude-repassa-r-12-mil-a-hospitais-por-cada-morte-por-covid-19.ghtml<\/a>. Acesso em: 18 fev. 2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Declara\u00e7\u00e3o de Bolsonaro: <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/politica\/sem-provas-bolsonaro-questiona-numero-de-mortos-por-covid-19-fala-em-fraude-para-uso-politico-24333952\">https:\/\/oglobo.globo.com\/politica\/sem-provas-bolsonaro-questiona-numero-de-mortos-por-covid-19-fala-em-fraude-para-uso-politico-24333952<\/a>. Acesso em: 19 fev. 2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a>\u00a0 Declara\u00e7\u00e3o do Secret\u00e1rio de Sa\u00fade Carlos Wizard: <a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/saude\/ultimas-noticias\/redacao\/2020\/06\/05\/secretario-diz-que-saude-recontara-numero-fantasioso-de-mortos-da-covid.htm\">https:\/\/noticias.uol.com.br\/saude\/ultimas-noticias\/redacao\/2020\/06\/05\/secretario-diz-que-saude-recontara-numero-fantasioso-de-mortos-da-covid.htm<\/a>. Acesso em: 18 fev. 2023.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>Per citare questo articolo:<\/p>\n<p>Dieila Dos SANTOS NUNES, Eduardo GL\u00dcCK, Maria Eduarda GIERING, \u00ab Coment\u00e1rios-troll no Twitter: a ciberviol\u00eancia discursiva contra o divulgador cient\u00edfico brasileiro Atila Iamarino\u00a0\u00bb, <em>Rep\u00e8res DoRiF,<\/em> n. 29\u00a0\u2013 <em>Discours autour de la pand\u00e9mie\u00a0: configurations interdiscursives et diatopiques d\u2019un fait de crise en \u00e9volution<\/em>, DoRiF Universit\u00e0, Roma, aprile 2024, https:\/\/www.dorif.it\/reperes\/d-dos-santos-nunes-e-gluck-m-e-giering-comentarios-troll-no-twitter-a-ciberviolencia-discursiva-contra-o-divulgador-cientifico-brasileiro-atila-iamarino\/<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">ISSN 2281-3020<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-8924 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.dorif.it\/reperes\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/logo-pubblicazione.png\" alt=\"\" width=\"111\" height=\"49\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Quest\u2019opera \u00e8 distribuita con Licenza\u00a0<a href=\"http:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-nc-nd\/3.0\/it\/\">Creative Commons Attribuzione \u2013 Non commerciale \u2013 Non opere derivate 3.0 Italia<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> <a href=\"https:\/\/www.dorif.it\/reperes\/d-dos-santos-nunes-e-gluck-m-e-giering-comentarios-troll-no-twitter-a-ciberviolencia-discursiva-contra-o-divulgador-cientifico-brasileiro-atila-iamarino\/\"> Continue de 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