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Dieila Dos SANTOS NUNES, Eduardo GLÜCK, Maria Eduarda GIERING

Comentários-troll no Twitter: a ciberviolência discursiva contra o divulgador científico brasileiro Atila Iamarino

 

 

 

Dieila dos Santos Nunes
Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos/Brasil
Faculdades Integradas de Taquara – Faccat/Brasil
dieiladossantos@gmail.com

Eduardo Glück
Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos/Brasil
Universidade NOVA de Lisboa – NOVA FCSH/Portugal
eduardogluck@gmail.com

Maria Eduarda Giering
Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos/Brasil
eduardajg@gmail.com

 


 

Abstract

This research aims to identify technodiscursive brands that materialize troll-comments that carry discursive cyberviolence, directed at the Brazilian scientific disseminator Atila Iamarino on Twitter. We adopt a post-dualist and ecological epistemological stance, based on the Digital Discourse Analysis proposed by Marie-Anne Paveau (2013, 2017, 2021). Our object of study is an example of troll comments intended for @oatila, selected for qualitative analysis. The results show that discursive cyberviolence manifests itself by means of the phenomenon of flaming, based on lexical choices with a negative axiological value and phrastic constructions with a derogatory content, and it arises exclusively from the intrinsic relationship between the Twitter user, the platform itself and the device used.

Resumo

Esta pesquisa objetiva identificar marcas tecnodiscursivas que materializam comentários-troll portadores de ciberviolência discursiva, direcionados ao divulgador científico brasileiro Atila Iamarino no Twitter. Adotamos uma postura epistemológica pós-dualista e ecológica, fundamentada na Análise do Discurso Digital proposta por Marie-Anne Paveau (2013, 2017, 2021). Nosso objeto de estudo é um exemplário de comentários-troll destinados a @oatila, selecionado para uma análise qualitativa. Os resultados evidenciam que a ciberviolência discursiva se manifesta pelo fenômeno do flaming, a partir de escolhas lexicais com valor axiológico negativo e construções frásticas com teor depreciativo, e surge exclusivamente da relação intrínseca entre usuário do Twitter, a própria plataforma e o dispositivo utilizado.

 


 

Introdução

Frente a um período histórico de crise de saúde pública no Brasil, o primeiro ano da pandemia de Covid-19 foi caracterizado pela defesa e disputa entre posições científicas e anticientíficas. Presenciamos a propagação descontrolada de notícias falsas e teorias negadoras do conhecimento científico e, ao mesmo tempo, acompanhamos o árduo trabalho dos cientistas na busca por vacinas e tratamentos para a Covid-19, bem como dos divulgadores científicos, que se dedicavam a comunicar ciência ao público não especializado.

As redes sociais foram atuantes nesse contexto, permitindo a divulgação dos resultados das pesquisas sobre o Sars-CoV-2. No entanto, também facilitaram a disseminação de desinformação e discursos negacionistas, abrindo espaço não só para contraposições ao conhecimento científico, mas para ataques violentos e insultuosos contra cientistas e porta-vozes da ciência.

O biólogo e microbiologista brasileiro Atila Iamarino[1] foi um dos principais divulgadores científicos que ganhou destaque durante esse período, conquistando espaço nos meios de comunicação por sua incansável atuação na divulgação da ciência em diferentes ecossistemas digitais, sobretudo no Twitter. Entretanto, ao Atila Iamarino romper a bolha da divulgação científica, alcançando um público maior devido à sua participação em diversos programas de televisão, ocorreu uma série de ataques verbais violentos contra ele.

Em pesquisa-piloto, assinada pela primeira autora deste trabalho, que buscou identificar quantitativamente ataques contra @oatila no primeiro semestre de 2020, encontramos 2.026 comentários-troll direcionados a esse divulgador científico, sendo 900 deles concentrados no mês de abril. Esses dados numéricos permitiram-nos classificar, segundo a Análise do Discurso Digital (PAVEAU 2021), os tipos de comentários digitais presentes nos tuítes de @oatila, mas principalmente ratificar a ciberviolência discursiva realizada a alguém que assumia a voz da ciência naquele momento de incertezas na saúde pública.

Partindo desses 900 comentários-troll objetos de nossa pesquisa-piloto, foi objetivo da pesquisa identificar marcas tecnodiscursivas[2] que materializam comentários-troll portadores de ciberviolência discursiva presentes em uma das quatro publicações mais curtidas de @oatila em abril de 2020. Nossa análise foi, portanto, qualitativa, de modo a atingir o objetivo delineado, compreendendo de que maneira ocorre a prática da ciberviolência discursiva na rede social digital Twitter.

Para fundamentar teoricamente este estudo, apoiamo-nos principalmente nos pressupostos da Análise do Discurso Digital, proposta pela linguista francesa Marie-Anne Paveau (2021).

1. Princípios da Análise do Discurso Digital e suas características

Inserimo-nos no escopo da Análise do Discurso Digital (doravante ADD), tendo em vista que nosso ecossistema de análise é o Twitter[3], bem como as categorias analíticas convocadas para dar conta deste estudo são tecnodiscursivas. Desse modo, recorremos à precursora da ADD, Marie-Anne Paveau, a fim de contemplar a dimensão tecnolinguageira inerente à nossa investigação. Consoante Paveau (2021), há uma dimensão indissociável entre a matéria linguageira e a matéria tecnológica. Trata-se de um verdadeiro imbricamento do discurso com a tecnologia digital (PAVEAU 2013, 2021).

Além disso, é relevante ressaltar que há importantes pesquisas sendo desenvolvidas sob a perspectiva da ADD. Com abordagem textual-discursiva, evidenciamos os estudos de Giering, Pinto (2021), Nunes, Giering (2022), Giering et al. (2023), Glück et al. (2022), Campani, Giering (2022), Souza (2021). Com ênfase nos fenômenos discursivos, destacamos os trabalhos de Dias (2020), Paveau  (2021), Baronas (2021), Costa, Glück (2021), Paveau, Costa (2021). No entanto, são escassos os trabalhos que dedicam seu olhar aos fenômenos textuais sob a ótica da Análise do Discurso Digital. Essa lacuna sugere uma oportunidade valiosa para aprofundar nossa compreensão do fenômeno discursivo digital, explorando a relação intrínseca entre a materialidade linguística e a tecnologia digital.

A ADD, para Paveau (2021), pode ser concebida enquanto uma Linguística Simétrica, a partir do conceito de simetria, cunhado pelo antropólogo, sociólogo e filósofo da ciência Bruno Latour (2012). De acordo com Latour (2012: 158), os objetos têm agência, que significa “estar associado de tal modo que fazem outros atores fazerem coisas”. Dessa maneira, o pesquisador (2012) advoga o mesmo status e a mesma atenção aos atores humanos e não humanos.

Por essa razão, a Linguística Simétrica opõe-se à Linguística Logocêntrica – esta última concebida pelos diversos estudos discursivos pré-digitais – uma vez que há o rompimento da noção de linguístico e de extralinguístico. Em outras palavras, os observáveis são de natureza puramente linguageira na perspectiva logocêntrica; por isso, há aspectos que competem à linguagem e outros que são exteriores a ela. Por sua vez, na perspectiva simétrica, os observáveis se compõem de natureza tecnolinguageira, em uma matéria mista. Consoante Paveau (2021), portanto, as produções nativas digitais são coconstitutivas de linguagem e tecnologia.

Nessa esteira, defendemos que o ecossistema no qual o usuário está inserido determinará os caminhos e as possibilidades de interação para ele. Assim, a tecnologia é vista como um elemento em simetria com os demais, e não um aspecto extralinguístico, como é vista em pesquisas pré-digitais.

Para alicerçar sua teoria, Paveau (2017, 2021) desenvolve seis características que definem o tecnodiscurso, a saber:

I) Composição: natureza indissociável entre matéria linguageira e matéria tecnológica das produções elaboradas e compartilhadas em contexto digital on-line.

II) Deslinearização: possibilidade tecnolinguageira de conectar dois textos digitais por meio de um elemento clicável, como o hiperlink.

III)  Ampliação: enunciação ampliada devido à conversacionalidade da Web, ou seja, as postagens on-line são aumentadas por comentários, ou até mesmo por ferramentas de escritas que permitem uma enunciação coletiva.

IV) Relacionalidade: relação com outros discursos devido à reticularidade da Web, além da relação entre os próprios aparelhos digitais, em virtude de sua natureza compósita, que produz enunciados em coprodução com a máquina.

V) Investigabilidade: possibilidade de rastreio dos discursos por meio das ferramentas de busca, que os tornam encontráveis ou coletáveis.

VI) Imprevisibilidade: ação dos programas e algoritmos que, por intermédio de suas fórmulas matemáticas gerenciados com a máquina, manipulam forma e conteúdo dispostos em contexto digital.

Apresentadas, de forma breve, a ADD e suas características, passamos à metodologia adotada para a execução de nossa pesquisa.

2. Notas sobre a ciberviolência discursiva

A origem da ciberviolência está vinculada à violência verbal que ocorre online. O termo “ciber” é um prefixo que se relaciona diretamente com o mundo das redes digitais. Para Lévy (2018: 94), ciberespaço é “o espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores”.

Nos ambientes conectados podem ocorrer diversos tipos de violência, tais como cyberbullying, coerção, ameaças, insultos, incitação ao suicídio e à violência etc., sendo esses hipônimos da ciberviolência. Eles representam o que Paveau (2021: 61) chama de “acontecimentos discursivos morais desencadeados por enunciados violentos”. Esses acontecimentos são conhecidos como ciberviolência discursiva, que abrange diversas práticas violentas, como ciberagressão, ciberdiscussão e ciberataque.

Paveau (2021) propõe o discurso violento por meio de uma tipologia linguística da ciberviolência discursiva, que é organizada em sete principais categorias, divididas em contexto interacional e contexto descritivo, narrativo e argumentativo. Como nosso propósito foi analisar interações no Twitter, plataforma que privilegia a conversacionalidade entre os usuários, principalmente pela possibilidade de realizar comentários, delimitamos nossa reflexão teórica na categoria que, conforme Paveau (2021), situa-se em contexto interacional e tem endereçamento direto em segunda pessoa: o flaming.

O flaming caracteriza-se, como já dito, por ter um direcionamento direto em segunda pessoa. Nesse caso, as questões tecnolinguísticas estão relacionadas à ordem pragmática, considerando os efeitos dos discursos violentos no ambiente tecnodiscursivo. Além disso, há implicações sociodiscursivas, pois envolve as normas de aceitabilidade dos discursos no meio digital e o papel desempenhado pelos agressores na construção desse discurso. De acordo com Amossy (2011), a linguagem agressiva e polarizada não é um fenômeno exclusivo das mídias digitais, embora esteja relacionada a elas. A autora argumenta que as “chamas” no ciberespaço devem ser compreendidas a partir do discurso polêmico. Assim, essa forma de comunicação intensa e controversa não se limita apenas ao ambiente digital, mas está presente também em outros espaços de comunicação.

Acreditamos que o flaming é intrínseco ao contexto digital. Ele está especialmente relacionado à existência de opiniões, culturas, crenças e filiações político-ideológicas divergentes entre os indivíduos envolvidos e emerge como resultado das interações nos ecossistemas digitais, onde as diferenças de visões e perspectivas podem gerar conflitos acalorados entre os participantes.

O fenômeno do pseudonimato, considerado “uma prática muito comum na cultura digital” (NUNES, GIERING 2022: 8560) que permite a escolha de um pseudônimo nas redes sociais, possibilita ataques online sem revelar a verdadeira identidade do agressor, alimentando outras formas de violência no ambiente digital. Logo, é uma atividade tecnodiscursiva que tem potencial de impulsionar o surgimento do flaming.

O discurso digital apresenta características intrínsecas à internet que são fundamentais para uma análise ecológica pós-dualista, visto que a materialidade dos fenômenos está condicionada pelas possibilidades e restrições de produção dos ambientes conectados. Por essa razão, a ciberviolência discursiva é amplamente influenciada pelos padrões de comunicação na web e, portanto, possui natureza tecnodiscursiva.

Segundo Paveau (2021), existem seis parâmetros que constituem o discurso violento na internet:

I) O anonimato-pseudonimato, que desempenha o papel crucial como facilitador e agravante da ciberviolência discursiva, uma vez que a vítima não consegue identificar a fonte da enunciativa.

II) O efeito de ausência e a cultura do quarto (bedroom culture): na comunicação online, a ausência de implicações da identidade física das pessoas gera um efeito de distanciamento que é intensificado pelo uso do pseudonimato, este determinante na escolha do tipo de ataque verbal e das respostas nas interações.

III) O efeito cockpit: devido à ausência física da vítima e à impossibilidade de conhecê-la concretamente, os ambientes conectados criam um distanciamento que parece remover as barreiras da censura verbal, encorajando o agressor a realizar ataques verbais de forma mais impiedosa.

IV) O deslocamento da relação de poder: no ambiente digital, o poder discursivo é detido por aqueles que dominam as ferramentas tecnológicas. Essa proficiência em tecnologia de natureza informática, somada aos três parâmetros mencionados anteriormente, estabelece a dinâmica de poder no meio digital por meio dos efeitos tecnológicos e pragmáticos dos discursos.

V) A inseparabilidade: os aparelhos ou dispositivos são vistos como componentes essenciais do ambiente, não se restringindo a meras ferramentas utilizadas para produzir discursos. Essa interligação entre o ser humano e a máquina sugere que, no plano discursivo, os discursos de ciberviolência não podem ser totalmente evitados, conferindo-lhes uma característica inédita que deve ser incorporada à sua descrição tecnodiscursiva (PAVEAU 2021).

VI) A viralidade: a capacidade de se tornar viral é uma característica dos discursos online e fortalece os efeitos pragmáticos da ciberviolência, com base na relação de dois sub-parâmetros: “a quantidade de emissores e receptores e a velocidade da disseminação” (PAVEAU 2021: 72). A intensificação da ciberviolência ocorre, então, quando muitas pessoas estão conectadas e interagindo em uma rede social ao mesmo tempo, o que pode levar a uma rápida disseminação de discursos agressivos e violentos.

Tais características dos ambientes conectados permitem-nos dizer que as redes sociais se constituem “como palco de interações que, por vezes, se fazem mais conflituosas do que harmônicas” (CABRAL, LIMA 2017: 87). Desse modo, consideramos importante refletir sobre como se materializam as interações online pelos comentários.

3. O comentário online: o caso do comentário-troll

O comentário online é um dos gêneros tecnodiscursivos mais comuns na internet, aparecendo em diversos tipos de sites, blogs e, principalmente, nas redes sociais digitais. Ele representa a ideia de interatividade na web, pois permite que o leitor assuma uma posição ativa diante do texto graças aos avanços das tecnologias interativas no meio digital. Consiste em “[…] lugar de diálogo, de sugestão, de discussão, de exegese, de interpretação, de manifestação de pontos de vista e de argumentos, instaurando quer relações convergentes e divergentes com o texto-fonte ou com comentários subsequentes” (SEARA 2021: 388).

O comentário pode ser considerado um tecnodiscurso segundo, engendrado em um espaço escritural específico e enunciativamente restrito, presente no interior de um ambiente conectado. São características do comentário online: enunciação pseudonímica, relacionalidade, conversacionalidade e recursividade, ampliação enunciativa e discursiva, publicidade e visibilidade (PAVEAU 2021).

A enunciação pseudonímica é considerada uma característica marcante do comentário online, pois este é assinado com, no mínimo, um endereço de IP ou, no máximo, a identidade oficial de registro civil. No entanto, entre essas duas opções, encontra-se o uso do pseudônimo escolhido pelo internauta como um fenômeno inerente às redes sociais.

Outra característica do comentário online é a relacionalidade, porque é um dos lugares mais comuns onde os enunciados da web se relacionam, e alguns metadados – dados sobre outros dados – revelam e identificam essas relações. O comentário é produzido e publicado em um espaço reservado, que o define como um comentário através de seus metadados; assim, dentro desse microssistema, o botão “responder” controla de forma prática o diálogo entre os comentadores.

A conversacionalidade e a recursividade são características presentes nos comentários, uma vez que as conversas ocorrem por meio das janelas de comentários e seus metadados. De acordo com Paveau (2021), as janelas tecnodiscursivas marcam o início de uma troca, e as sequências de fechamento não existem no ambiente online, pois os comentários permanecem abertos, evidenciando a possibilidade de continuação da conversa.

Além disso, o comentário possui publicidade e visibilidade inerentes. Paveau (2021) chama essa dimensão de sociotécnica, pois ela influencia o funcionamento tecnodiscursivo do comentário, juntamente com o pseudonimato, a relacionalidade, a conversacionalidade e a ampliação. Em sites e blogs, é comum que os comentários sejam públicos e visíveis, enquanto nas redes sociais, isso depende da configuração feita pelo usuário da conta. No caso do Twitter, nem todos os comentários públicos são visíveis, pois o usuário pode optar por tornar sua conta privada ou bloquear e ocultar determinados conteúdos de seus seguidores ou parte deles.

A ADD propõe uma tipologia dos comentários online, compreendida em quatro grandes categorias (comentário relacional, comentário conversacional, comentário deslocado e comentário-compartilhamento). Dentro das interações conversacionais e podendo ser definido enquanto um tipo de comentário conversacional, tem-se o comentário-troll, cujo único propósito é criar confusão ou interromper a conversa com intervenções inadequadas.

O termo “troll” deriva da expressão “trolling for suckers” ou “lançando a isca para os trouxas” e surgiu na Usenet, uma rede descentralizada composta por servidores de diferentes hosts que distribuem e armazenam dados. Na internet, a palavra “troll” é usada para se referir aos internautas que têm o objetivo de perturbar a harmonia das interações, semeando o caos por meio de comentários violentos e, em muitos casos, que não têm relação com o tópico em discussão. De acordo com Amaral, Quadros (2006), os trolls postam mensagens agressivas que variam de ironia e humor até ameaças à integridade dos participantes, insultos, especulações sobre a vida pessoal e uso de palavrões.

Observamos que o comportamento troll em comentários pode ser compreendido à luz do conceito de “haters”. O termo “haters” tem origem na língua inglesa e surgiu, de acordo com Rebs, Ernst (2017), nos guetos norte-americanos por meio da expressão “haters gonna hate”, que pode ser traduzida para o português como “odiadores vão odiar”. Nas plataformas de redes sociais, aqueles internautas que buscam promover violência e agem de maneira agressiva contra outros usuários, frequentemente figuras públicas, instituições ou empresas, são conhecidos como “haters”.

Diante do apresentado, sustentamos a perspectiva de que, em determinados cenários, os trolls podem ser considerados como potenciais “haters”, uma vez que ambos almejam instigar tumulto em uma conversa por meio de comentários intempestivos e mal-intencionados. Paveau (2021) também enfatiza que a palavra “troll” refere-se tanto à figura do locutor online, cujo propósito é minar a interação, quanto ao comentário por ele gerado. Assim, estamos lidando com o fenômeno do “comentário-troll”, do qual decorre o flaming – uma das categorias de ciberviolência mais encontradas nesse tipo de comentário, em virtude de seus efeitos violentos.

Nesse sentido, devido à complexidade do comentário-troll enquanto fenômeno característico dos ambientes digitais, sobretudo das redes sociais, que permitem interação direta entre os internautas, julgamos adequado compreender o funcionamento dos tecnodiscursos e suas principais características.

4. Metodologia

Nesta análise de teor qualitativo, será utilizada a Análise do Discurso Digital (PAVEAU 2021) com uma abordagem ecológica e pós-dualista, considerando tanto elementos linguísticos quanto elementos tecnológicos informáticos numa relação compósita. Nesse sentido, abandonamos o dualismo entre objetividade e subjetividade, uma vez que os dados foram gerados pela primeira autora, que atua como analista e como usuária do Twitter. Cada usuário tem uma perspectiva específica e visualiza conteúdos altamente contextualizados pela dinâmica da web, incluindo formatos de navegação e cálculos algorítmicos. Portanto, nossos dados são compostos de dados específicos e subjetivos.

Com o propósito de atender ao objetivo desta pesquisa, e tendo em vista sua extensão, selecionamos os dois primeiros comentários-troll do tuíte de @oatila entre os quatro que foram publicados por ele no mês de abril de 2020 e receberam mais reações em curtidas. Eles representam, dessa maneira, um exemplário do corpus de 900 comentários-troll selecionados mês de abril de 2020.

A definição desse número limitado de tuítes está em consonância com Moirand (2020), uma vez que, ao tratar da extensão de corpora em ambiente digital, a referida linguista defende que o analista de discurso digital possa realizar seu estudo a partir do que ela denomina “pequenos corpora”. De acordo com Moirand (2020: 21), os pequenos corpora “possibilitam descrever as formas discursivas, raras ou não estabilizadas ainda, […] bem como as relações entre a linguagem verbal e o mundo (o ambiente, os objetos, os atores e suas ações”. Dessa forma, optamos por compor um corpus de dois tuítes, considerando igualmente, na delimitação desse número, a projeção de um estudo detalhado de cada tuíte selecionado. Com isso, buscamos resolver a questão da quantidade de elementos de composição do corpus problematizada por Paveau (2021).

Destacamos que, durante nossa análise, encontramos diversos fenômenos tecnodiscursivos dentro desse ambiente digital, os quais expressam as características próprias dos discursos digitais (composição, deslinearização, ampliação, relacionalidade, investigabilidade e imprevisibilidade). No entanto, direcionaremos nosso foco para os elementos observáveis que correspondem aos objetivos específicos desta pesquisa, isto é, buscaremos identificar marcas tecnodiscursivas que materializam os comentários-troll portadores de ciberviolência discursiva selecionados.

5. Análise e discussão dos dados

Em uma abordagem ecológica, não é possível analisar as produções tecnodiscursivas de forma isolada. Iniciaremos, nesse sentido, a análise dos dados pelo tuíte que gerou os comentários-troll. Ele foi publicado por @oatila no dia 28, às 8h22min, pelo aplicativo Twitter Web. Apresenta um formato conhecido como thread, ou seja, uma sequência em fio, dividida em duas janelas, cada uma contendo até 280 caracteres. O primeiro tuíte obteve 14,4 mil curtidas, 3.977 retuítes e 387 comentários, enquanto o segundo recebeu 2.744 curtidas, 468 retuítes e 39 comentários.

 Figura 1: Tuíte de @oatila
Fonte: @oatila (2020)[4]. Captura de tela realizada pela primeira autora em 16/04/2022

Os dois tuítes desse thread apresentam texto escrito diretamente no Twitter, um link hipertextual e uma imagem fixa. Diante da discussão sobre a possibilidade de encerrar o isolamento social fomentada pelo Governo Federal[5], Atila Iamarino compartilha duas pesquisas científicas que defendem a continuidade da quarentena no país. As informações apresentadas têm como base dados científicos e são divulgadas com o intuito de sustentar a importância de manter as medidas de isolamento social.

O primeiro tuíte apresenta um estudo que visa explicar por que o Brasil é considerado um dos epicentros da Covid-19 no mundo. O estudo é baseado em uma nova projeção feita por pesquisadores do Imperial College London sobre o número de óbitos para a próxima subsequente. O tuíte inclui um hiperlink textual que leva diretamente ao local onde o relatório científico intitulado “Short-term forecasts of COVID-19 deaths in multiple countries” está publicado. Isso permite que o leitor acesse a pesquisa mencionada de forma imediata. O interlocutor, ao clicar no hiperlink, pode abrir uma nova janela em seu navegador sem precisar sair do ecossistema Twitter. Dessa forma, ele pode conferir a validade do argumento de autoridade apresentado pelo locutor, que se baseia no estudo mencionado.

Há também no primeiro tuíte a inclusão de uma imagem fixa logo abaixo do hiperlink, capturada diretamente pelo locutor usando o dispositivo utilizado para publicar o tuíte, que exibe um trecho do relatório científico do Imperial College. A inserção da imagem fixa foi possível por meio do recurso “Mídia”, uma funcionalidade tecnológica disponibilizada pela plataforma Twitter, que permitiu o carregamento da imagem para compor o tuíte. Ela possibilita ao interlocutor visualizar parte do relatório no próprio tuíte, sem sair do ecossistema de publicação (deslinerização visual). No entanto, é importante notar que a leitura é filtrada pelo locutor, pois apenas trechos específicos do relatório são exibidos na imagem. O objetivo é enfatizar especialmente o excerto “muito grande em 2 países (> 5000 mortes)” referente ao Brasil e aos Estados Unidos da América. Esse trecho foi destacado com uma forma retangular de cor vermelha na imagem, fora do Twitter, no dispositivo de armazenamento da imagem. Essa estratégia visa corroborar os dados apresentados sobre o aumento de mortes relacionadas ao novo coronavírus.

O segundo tuíte dentro desse thread continua o assunto e apresenta um estudo realizado no Brasil por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz, que também projeta um aumento no número de óbitos por Covid-19, porém em escala menor. A estrutura desse tuíte é similar à do primeiro, com texto escrito, um hiperlink textual (que permite a deslinearização sintagmática) e uma imagem fixa (que possibilita a deslinearização visual, PAVEAU 2021). Nesse caso, a imagem fixa exibe um gráfico elaborado pela Fiocruz, que mostra a previsão mensal do número de óbitos, com destaque para a data de 28 de abril, quando os tuítes foram publicados. Esse gráfico foi obtido da mesma forma que no tuíte anterior: por meio da captura de tela realizada pelo locutor, dentro do ambiente de publicação do estudo na Fiocruz, e posterior armazenamento da imagem em seu dispositivo. Em seguida, a imagem foi inserida no tuíte utilizando o recurso “mídia” disponibilizado pelo ecossistema do Twitter. Assim como no primeiro tuíte, a imagem fixa serve para enfatizar e visualizar os dados referentes à projeção de óbitos, fornecendo ao leitor uma perspectiva clara da previsão de 5.017 prováveis óbitos para a data de 28 de abril.

A publicação desse thread ocasionou muitas reações negativas e de contraposição ao conteúdo do tuíte por internautas e usuários do Twitter que negavam o conhecimento científico nesse período, permitindo a materialização dos comentários-troll.

O primeiro comentário-troll foi publicado no dia 28 de abril somente com texto verbal. Ele recebeu 16 curtidas, nenhum comentário e nenhum retuíte.

Figura 2: Comentário-troll[6] 1
Fonte: @oatila (2020)[7]. Captura de tela realizada pela primeira autora em 16/04/2022

Esse comentário-troll é introduzido com um ataque pessoal direto à @oatila. Por meio do pronome “você”, implicando o seu interlocutor, seguido do verbo de ligação “é”, que indica a qualidade negativa em estado permanente dada pelo locutor, e do predicativo do sujeito “só mais um maluco da Internet q não sabe oq fala”, há uma tentativa de depreciar o ofício de divulgador científico, atuante no ambiente digital.

Desse modo, em “Você é só mais um maluco da Internet q não sabe oq fala”, o locutor-agressor intenciona desdenhar o interlocutor, concedendo-lhe um lugar comum e de desprezo, na medida em que ignora a formação acadêmica e o trabalho de divulgação científica de @oatila antes e durante a pandemia, optando por classificá-lo ofensivamente enquanto “só mais um maluco” inserido no digital. O Dicionário On-line de Língua Portuguesa[8] define o adjetivo “maluco” como alguém “sem juízo, desequilibrado, louco, doido, aquele que se comporta sem nexo, juízo ou seriedade”. Já o Dicionário InFormal apresenta a seguinte definição: “Maluco é uma pessoa normal dependente de um mundo completamente vazio de seu ser!”. Logo, essa expressão é empregada nessas circunstâncias para depreciar a pessoa e o trabalho de popularização científica desenvolvido por Atila.

Em seguida, a união da suposição “deve viver nesse mundo virtual” com a injunção “se informe sai desse mundo de Nárnia que vive”, estabelecendo ao interlocutor a ação de sair do mundo de Nárnia a ser realizada, demonstra a falta de compreensão do trabalho de divulgação científica desempenhado por Atila Iamarino e a privação de entendimento do próprio funcionamento da ciência. Ainda, podemos inferir que, pelo fenômeno da interdiscursividade, o locutor-agressor evidencia um alinhamento de formação ideológica com o ex-presidente do Brasil Jair Messias Bolsonaro, uma vez que o mandatário expôs publicamente por diversas vezes, antes da publicação desse comentário-troll, seu ponto de vista em relação à forma de enfrentar a pandemia, a qual, para ele, deveria ser encarada com a realidade. Dentre as suas declarações nessa linha de raciocínio, no dia 30 de março, em uma coletiva de imprensa em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília, Bolsonaro afirmou: “Essa é uma realidade, o vírus tá aí. Vamos ter que enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, porra. Não como um moleque. Vamos enfrentar o vírus com a realidade. É a vida. Tomos nós iremos morrer um dia”[9]. Assim, o locutor-agressor, diante do evidente desconhecimento do próprio papel da ciência e de seus comunicadores, estando possivelmente filiado aos métodos de combate à pandemia adotados por Bolsonaro, afirma que o seu interlocutor está no “mundo de Nárnia”. Nárnia é um mundo fictício retratado nas sete obras do escritor irlandês Clive Staples Lewis, conhecidas como “As crônicas de Nárnia”, nas quais esse lugar é considerado um planeta fantástico, cheio de mistérios e mágicas, habitado por criaturas mitológicas. Ao encontro dessa ideia de fantasia e irrealidade, a expressão “mundo de Nárnia” passou a ser utilizada pelos falantes da língua portuguesa para se referir a alguém que está longe da realidade, inclusive, o próprio Dicionário InFormal de Língua Portuguesa já apresenta este significado para “Nárnia”: “Quando a pessoa está em outra dimensão”.

Em uma tentativa de contrapor o lugar fantasioso e distante da realidade atribuído ao seu interlocutor, o locutor-agressor busca construir uma imagem de trabalhador, de quem enfrenta a realidade, quando afirma: “nunca tive nada de ninguém tudo conquistei foi com muita luta e trabalho e respeito a lei”. Há um movimento do locutor de marcar as diferenças entre ele e seu interlocutor, pois contraria com essa afirmação a qualificação negativa que concedeu anteriormente ao outro; em outras palavras, o locutor-agressor desqualifica a pessoa de seu interlocutor e, ao mesmo tempo, constrói uma antítese entre os dois modos de ver e agir no mundo. Temos, assim, uma configuração antagônica criada pelo locutor-agressor, o qual institui o interlocutor enquanto sujeito que vive em um mundo fantasioso e, em oposição, autodenomina-se sujeito trabalhador, de luta e que respeita a lei, logo, deixa implícito que vive num mundo real.

Esse comentário com reação negativa ao thread de @oatila – que tem como objetivo informar duas pesquisas com projeções não otimistas a respeito do número de óbitos decorrentes da Covid-19 e defender a ciência – nomeia ainda o conteúdo publicado de “besteira”, a fim de desconsiderar os fatos científicos informados e anular a idoneidade de Atila na seleção e divulgação da novidade científica, já que, de acordo com o Dicionário On-line de Língua Portuguesa (2023: n. p.), dizer “besteira” é o mesmo que “bobagens, burrices, estupidezes, tolices”, e para o Dicionário InFormal[10], “besteira” significa ausência de ideias, tolices.

Desse modo, todo o enunciado está para desqualificar a pessoa de Atila Iamarino, não só como divulgador científico, mas enquanto pessoa, porque tais expressões ofensivas não se restringem ao teor do conteúdo publicado ou aos métodos empregados pelo divulgador para selecioná-lo ou apresentá-lo, elas entram no terreno pessoal.

O conjunto de ataques insultantes manifestado no comentário-troll em análise faz surgir o fenômeno do flaming (PAVEAU 2021), primeiro pela sua característica principal de ser endereçado diretamente a alguém, em segunda pessoa, depois pelo seu caráter inflamado e agressivo que pode promover um linchamento on-line no ecossistema de publicação.

O segundo comentário-troll direcionado ao tuíte de @oatila foi publicado no dia 29 de abril de 2020, recebeu 1 curtida, nenhum retuíte e nenhum comentário.

 

Figura 3: Comentário-troll 2
Fonte: @oatila (2020)[11]. Captura de tela realizada pela primeira autora em 16/04/2022

Com a materialização da violência somente em texto verbal, temos um comentário-troll escrito por um usuário do Twitter que escolhe a bandeira do Brasil para ocupar o espaço de sua foto de perfil. A bandeira do Brasil passou a ser uma marca de posicionamento político de parte da população, aquela que apoiou Bolsonaro em suas decisões anticientíficas e negacionistas, utilizada nos ecossistemas digitais e em outros espaços, desde o movimento “Vem Pra Rua”, considerado por Rocha, Klein (2018: 93), juntamente com os movimentos “Revoltados on-line” e “Movimento Livre Brasil” (MBL), como o “embrião político operacional dos grupos neoconservadores”. Desse modo, a seleção da imagem de perfil não é aleatória, e isso só se comprova com o conteúdo insultuoso do comentário.

Vai tomar no seu cu, seu falsário do kralho” é a construção hostil e de baixo calão que introduz esse comentário-troll. A palavra “cu”, de origem do latim vulgar, vem de “culus”, que significa “ânus”, orifício localizado no fim do intestino grosso para eliminar os excrementos. Esse vocábulo que remete à parte da anatomia foi incorporado à expressão “Vai tomar no cu”, empregada pelos falantes do português brasileiro como forma popular de xingamento e desafeto. Na realização desse insulto, o locutor-agressor implica seu interlocutor pela injunção expressa em “vai tomar no seu cu”, seguida do vocativo “seu falsário do kralho”, para caracterizá-lo enquanto sujeito que comete falsidades, logo, não confiável. O termo “Kralho” é a abreviação de “caralho”, que remete ao órgão sexual masculino, e define-se enquanto gíria utilizada para expressar um ato de indignação, admiração ou surpresa, nesse caso, o ato pode ser de indignação. Todavia, conforme Basso (2018), é importante destacar que palavrões não são simplesmente expressões ruins utilizadas por pessoas moralmente fracas; ao contrário, levantam questões intrigantes. Os palavrões são elementos complexos, influenciados pela dinâmica social e cultural, e sua compreensão vai além de simples julgamentos morais.

O período “Estão pipocando centenas de denúncias sobre mortes por outras doenças como sendo pelo vírus chinês” permite-nos entender o contexto de negacionismo fomentado pelo ex-presidente Jair Messias Bolsonaro e demais membros do governo, assim como o aumento massivo de circulação de desinformação e de teorias da conspiração nos ecossistemas digitais. Isso porque foi compartilhada a fake news de que óbitos em decorrência de outras doenças estavam sendo contabilizadas como consequências da Covid-19, para usufruir do benefício enviado pelo Governo Federal de 12 mil reais a hospitais por cada morte pelo novo coronavírus[12]. O próprio ex-presidente fez várias declarações de que o número de óbitos era superestimado, uma delas foi realizada dias antes da publicação do comentário analisado, no dia 27 de março de 2020. Na ocasião, Bolsonaro acusou[13] os estados brasileiros de estarem fraudando o número de óbitos para fazer “uso político”. Alinhado a esse discurso conspiracionista, o Ministério da Saúde afirmou[14], pela voz do Secretário Carlos Wizard, que haveria uma recontagem do número “fantasioso” de mortes por Covid-19. Essa teoria foi rapidamente aceita e compartilhada pelos apoiadores de Bolsonaro nas redes sociais, fato comprovado nesse comentário. Outra marca de filiação ao espectro político de extrema-direita é a inserção da expressão “vírus chinês” nesse enunciado, pois ela faz parte de um campo semântico pertencente a esse grupo político-ideológico, que culpabilizava a China e os chineses pela crise de saúde pública.

Esse comentário-troll é finalizado pelo período ofensivo “Vá pra puta que o pariu com essa ladainha”, seguido do período “respeite as famílias de quem morre pelo menos”, que estabelece ao interlocutor uma ação a realizar, deixando implícito que @oatila não respeita o momento de dor vivenciado por familiares dos falecidos. “Vá pra puta que te pariu” é uma forma de xingamento utilizada, conforme o Dicionário InFormal de Língua Portuguesa (2023: n. p.), “quando uma pessoa está irritada com alguém”. Além disso, esse comentário-troll exemplifica como palavras consideradas ofensivas podem ser inseridas em um contexto específico, revelando nuances das relações interpessoais e evidenciando a complexidade da linguagem ofensiva, conforme destaca Basso (2018) em sua reflexão sobre os palavrões.

Podemos observar, nesse enunciado, que o locutor-agressor classifica como “essa ladainha” a divulgação científica dos resultados de duas projeções científicas, posicionando-se claramente em defesa de uma pauta conspiracionista e negacionista defendida pelo Governo Federal, em detrimento do conhecimento científico informado pelo divulgador científico Atila Iamarino.

O flaming (PAVEAU 2021), enquanto categoria da ciberviolência discursiva, manifesta-se nesse comentário de forma sistemática, com insultos e afirmações conspiratórias endereçados a um interlocutor que se coloca no campo oposto ao do locutor.

Considerações finais

Nesta pesquisa, que tinha o propósito de identificar marcas tecnodiscursivas de ciberviolência discursiva em um exemplário composto de dois comentários-troll, pudemos identificar que os ataques insultuosos partiram de indivíduos que negam a ciência e foram, em grande parte, uma reação ao thread de divulgação científica publicado por @oatila no Twitter.

As marcas tecnodiscursivas encontradas nos comentários portadores de ciberviolência discursiva são diversas, desde escolhas lexicais com valor axiológico negativo até construções frásticas com teor depreciativo. Nos comentários de análise, escritos exclusivamente em texto verbal, identificamos claramente a ação conjunta dos internautas usuários do Twitter, utilizando mão e máquina, com a rede social para realizar a violência verbal. Desse modo, esse fenômeno tecnodiscursivo só é possível graças às possibilidades oferecidas pelo ecossistema de publicação, que viabiliza e impulsiona, pela ação de escrever um comentário em um espaço específico e endereçado a outro usuário, a ciberviolência no Twitter.

Identificamos, além disso, que esses comentários-troll foram motivados sobretudo por pautas anticientíficas defendidas pela extrema-direita brasileira durante o primeiro semestre de pandemia no país. Há marcas que evidenciam um posicionamento político-ideológico pertencente a um grupo que negava a ciência, atacava os cientistas e os divulgadores de ciência, assim como defendia uma agenda ancorada pelo pseudocientificismo e pela desinformação.

Os comentários-troll analisados revelam um comportamento agressivo e ofensivo por parte dos locutores-agressores. Ambos os comentários evidenciam a presença do flaming, categoria da ciberviolência discursiva que é caracterizada pelo discurso agressivo e inflamado direcionado a um interlocutor específico. As ofensas pessoais, a disseminação de desinformação e a ordem desrespeitosa presentes nesses comentários refletem a hostilidade dos locutores-agressores. É relevante refletir que esse comportamento contribuiu para a criação de um ambiente tóxico e prejudicial ao bom andamento das discussões científicas sobre Covid-19 entre @oatila, seus seguidores e demais usuários do Twitter.

Ante o exposto, entendemos que a ciberviolência discursiva se materializa, portanto, pelo flaming realizado em comentários-troll dirigidos a um internauta e usuário do Twitter que assume a posição de porta-voz da ciência. Ela surge unicamente da conexão intrínseca entre o usuário da rede social, a própria rede social e o dispositivo utilizado.

 

Referências

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[1] Atila Iamarino é um microbiologista brasileiro e divulgador científico. Concluiu o bacharelado em Biologia na Universidade de São Paulo em 2006, seguido pelo doutorado em Microbiologia, com defesa de tese em 2012. Em 2008, Atila idealizou e criou, juntamente com o professor Carlos Takeshi Hotta (USP), o ScienceBlogs Brasil, o maior blog de ciências do mundo, e posteriormente lançou o ScienceVlogs Brasil em 2016. Em 2010, iniciou o canal Nerdologia no YouTube, focado em conteúdo científico ao público não especializado, e em 2012 criou o canal Atila Iamarino, que tem como descrição “Divulgador científico e explicador do mundo por opção”. Reconhecido por suas contribuições para a comunicação pública da ciência no Brasil, Atila foi considerado a voz mais influente na discussão sobre Covid-19 no Twitter em 2020, de acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPAD) em parceria com o Science Pulse, ocupando a primeira posição no ranking geral (MEIRELLES 2020).

[2] Assumimos a postulação de Paveau (2021), de que os discursos digitais nativos são compósitos, uma vez que são constituídos de matéria mista, reunindo o linguageiro e o tecnológico de natureza informática. Isso caracteriza uma composição tecnolinguageira, com marca tecnodiscursiva, que pode ser plurissemiótica, ao mobilizar, em uma mesma semiose, texto, imagem fixa ou animada, som (PAVEAU 2021; GIERING, PINTO 2021). Desse modo, consoante Paveau (2021), as marcas linguageiras compõem-se de matéria mista entre o linguístico e o tecnológico, sendo endêmicas ao discurso digital nativo.

[3] Embora o atual dono do Twitter, Elon Musk, tenha anunciado, em 24 de julho de 2023, a implementação do nome X à rede social (https://gauchazh.clicrbs.com.br/tecnologia/noticia/2023/07/elon-musk-inicia-mudanca-do-nome-do-twitter-para-x-clkgq5s2m00030154p8pe3doa.html), optamos por manter a nomenclatura anterior, Twitter, visto que, na geração dos dados, esse era o nome da plataforma.

[4] Disponível em: https://twitter.com/oatila/status/1255276160709263360. Acesso em 16 abr. 2022.

[5] O Governo Bolsonaro (2019-2022), durante a pandemia de Covid-19 no Brasil, negou a gravidade do vírus, chamou a Covid-19 de “gripezinha” em pronunciamento oficial na televisão e em live realizada nas redes sociais. A BBC News Brasil compilou em vídeo dois momentos nos quais Jair Bolsonaro utilizou a expressão “gripezinha” para se referir à Covid-19:  https://www.bbc.com/portuguese/ brasil-55107536. Acesso em: 05 jan. 2021. O ex-presidente Jair Messias Bolsonaro também incentivou o não respeito às orientações da OMS para a prevenção da Covid-19, como pode ser consultado em: https://g1.globo.com/ politica/noticia/2020/08/19/bolsonaro-contraria-ciencia-e-diz-a-apoiadores-que-eficacia-de-mascara-e-quase-nenhuma.ghtml. Acesso em: 06 jan. 2021. Além disso, promoveu o chamado “Kit Covid” -composto de Ivermectina, Cloroquina e Hidroxicloroquina, embora as evidências científicas mostrassem a não eficácia e os riscos da ingestão desses medicamentos de modo sistemático: https://oglobo.globo.com/ politica/bolsonaro-defendeu-uso-de-cloroquina-em-23-discursos-oficiais-leia-as-frases-25025384. Acesso em: 03 jun. 2021.

[6] Para preservar a identidade dos usuários do Twitter que possivelmente apresentam a identidade oficial, utilizaremos uma tarja em cima da foto e do nome de perfil.

[7] Disponível em: https://twitter.com/oatila/status/1255276160709263360. Acesso em 16 abr. 2022.

[8] https://www.dicionarioinformal.com.br/maluco/

[9]  Declaração disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=unjwCA9RdSk. Acesso em: 13 fev. 2023. As falas anticientíficas e polêmicas do ex-presidente Bolsonaro foram registradas pelos veículos de comunicação. O jornal Folha de São Paulo compilou 15 frases que demonstram o desprezo e a negligência de Bolsonaro no enfrentamento à pandemia: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2023/05/em-15-frases-relembre-desprezo-de-bolsonaro-pela-pandemia-da-covid-19.shtml. Acesso em: 05 dez. 2023.

[10] https://www.dicionarioinformal.com.br/besteira/

[11] Disponível em: https://twitter.com/oatila/status/1255276160709263360. Acesso em 16 abr. 2022.

[12] Fake news desmentida pelo G1: https://g1.globo.com/fato-ou-fake/coronavirus/noticia/2020/05/18/e-fake-que-ministerio-da-saude-repassa-r-12-mil-a-hospitais-por-cada-morte-por-covid-19.ghtml. Acesso em: 18 fev. 2023.

[13] Declaração de Bolsonaro: https://oglobo.globo.com/politica/sem-provas-bolsonaro-questiona-numero-de-mortos-por-covid-19-fala-em-fraude-para-uso-politico-24333952. Acesso em: 19 fev. 2023.

[14]  Declaração do Secretário de Saúde Carlos Wizard: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/06/05/secretario-diz-que-saude-recontara-numero-fantasioso-de-mortos-da-covid.htm. Acesso em: 18 fev. 2023.

 


Per citare questo articolo:

Dieila Dos SANTOS NUNES, Eduardo GLÜCK, Maria Eduarda GIERING, « Comentários-troll no Twitter: a ciberviolência discursiva contra o divulgador científico brasileiro Atila Iamarino », Repères DoRiF, n. 29 – Discours autour de la pandémie : configurations interdiscursives et diatopiques d’un fait de crise en évolution, DoRiF Università, Roma, aprile 2024, https://www.dorif.it/reperes/d-dos-santos-nunes-e-gluck-m-e-giering-comentarios-troll-no-twitter-a-ciberviolencia-discursiva-contra-o-divulgador-cientifico-brasileiro-atila-iamarino/

ISSN 2281-3020

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